ANÁLISE: Memória seletiva

Uma nova Carta ao Povo Brasileiro soa como uma tentativa anacrônica de repetir os passos que levaram o PT ao governo federal pela primeira vez

Hilton Cesario Fernandes*, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2017 | 05h00

A Carta ao Povo Brasileiro, de 2002, serviu muito mais como um aceno ao mercado, em especial o mercado financeiro, de que o PT estaria disposto a mudar seu discurso mais radical e respeitar os fundamentos da política econômica adotada pelo governo Fernando Henrique.

Lula não ganhou as eleições de 2002 graças a esta carta, mas, com ela, diminuiu algumas resistências à sua candidatura. Havia ainda muita desconfiança sobre o que seria um governo petista, e a carta serviu como uma espécie de “beija-mão”, cujo simbolismo demonstrava que Lula seria capaz de se declarar publicamente a favor de uma política econômica que havia sido um dos pilares das críticas petistas ao governo tucano.

O primeiro mandato de Lula confirmou esta disposição e acalmou o mercado. Com a liderança de Antonio Palocci no Ministério da Fazenda, a quem Lula chegou a afirmar ser “unha e carne”, e Henrique Meirelles como presidente do Banco Central, a equipe econômica serviu como alicerce para que a desconfiança se transformasse em aposta.

O sucesso de Lula o ajudou a superar o desgaste causado pelo caso do mensalão e se reeleger em 2006, desfrutando de um segundo mandato bastante positivo, com recordes de popularidade. Como consequência, em 2010 Lula elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff, e, mesmo já com o início da Operação Lava Jato, ainda a viu ser reeleita em 2014.

Mas os tempos são outros. A presidente Dilma sofreu impeachment, Henrique Meirelles se tornou ministro da Fazenda de Michel Temer e Palocci foi condenado a 12 anos de prisão em uma das diversas ações da Lava Jato, aderindo a um acordo de delação premiada que comprometeu ainda mais o PT.

Parte dos quadros petistas que chegou ao poder em 2002 está fora de cena, distantes da política ou sob o peso das investigações de corrupção que ainda atingem o partido. Além disso, a base eleitoral de Lula também sofreu diversas mudanças após sua primeira vitória. A classe média se distanciou e formou a base da insatisfação popular que culminou na saída de Dilma em 2016, uma presidente mal avaliada mesmo entre as classes mais baixas.

Neste contexto, uma nova Carta ao Povo Brasileiro soa como uma tentativa anacrônica de repetir os passos que levaram o PT ao governo federal pela primeira vez. Resta saber, entretanto, se o partido irá apresentar novas lideranças e propostas ou se continuará a oferecer verdades alternativas sobre o passado recente.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO (FESPSP)

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