ANÁLISE: Incertezas políticas para a atual administração

Nada garante que haverá coesão suficiente para que reformas consideradas essenciais pelo governo Temer possam ser aprovadas sem que a cisão entre aliados e o clima pré-eleitoral de 2018 possam inviabilizá-las

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2017 | 05h00

Após sobreviver ao julgamento de cassação da chapa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de escapar ao pedido de duas aberturas de processos feitas pela PGR na Câmara dos Deputados, o governo do presidente da República, Michel Temer, parece ter se livrado definitivamente do risco de não concluir mandato que termina em dezembro de 2018. Porém, dada a atual configuração de sua base de apoio e as contendas internas a ela, nada garante que haverá coesão suficiente para que reformas consideradas essenciais pela equipe econômica como a tributária e a previdenciária possam ser aprovadas sem que a cisão entre aliados e o clima pré-eleitoral de 2018 possam inviabilizá-las.

O esgarçamento da base governamental pode ser visto em vários movimentos: 1) com o PSDB vivendo o dilema do desembarque, algo que acabou criando dois grupos de tucanos: aqueles que defendem o governo (o partido ainda detém quatro ministérios) e os que fazem oposição; 2) o chamado Centrão sempre brigando por mais espaços e mais cargos e para isso pede publicamente a cabeça de aliados e cobra até uma reforma ministerial; 3) o DEM tentando costurar um projeto próprio seja com a busca de maior protagonismo do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, ou mesmo com a aproximação de uma possível candidatura do apresentador Luciano Huck.

Tais situações demonstram a forte tendência de que a coordenação política do governo daqui em diante mobilize suas energias mais para administrar conflitos do que para conduzir uma agenda propositiva voltada para diminuir a extrema deterioração da imagem governamental.

No momento, Temer tem procurado se desvencilhar dos conflitos internos da base aliada e vem buscando dialogar com diferentes áreas governamentais e entes federativos no sentido de mostrar a existência de ação governamental focando propostas pontuais para a economia e para a segurança. Todavia, o que parecia uma aposta acertada com a parceria com o governo do Rio de Janeiro no enfrentamento do problema da segurança pública, acabou se traduzindo num desastre político após as declarações do ministro da Justiça, Torquato Jardim. Outro episódio que representou desgaste para o governo foi o pedido de Luislinda Valois, dos Direitos Humanos, que citou escravidão para exigir salário de R$ 61 mil.

Sem que se consiga uma recuperação econômica robusta, algo que na avaliação de sua equipe e do mercado dependeria da aprovação de reformas, é muito improvável que Michel Temer encontre tempo suficiente para ganhar ou recuperar popularidade substantiva que possa permitir a ele influenciar nas eleições de 2018, quer seja como cabo eleitoral ou mesmo como líder de da articulação de uma candidatura. Na conjuntura atual, DEM e PSDB, seus principais aliados, não tirariam foto de campanha com o presidente.

*PROFESSOR DO CURSO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DA FGV-SP

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