Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Ricardo Stuckert/Instituto Lula

ANÁLISE: Impedimento de Lula reúne esquerda em torno de seu direito de concorrer à Presidência

Um fantasma ronda o Brasil. Contra ele se erguem todos os poderes: o juiz Moro e a candidata Luciana Genro; a Lava Jato e os pastores evangélicos; o centro e os governistas

Lincoln Secco*, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2018 | 16h56

Um fantasma ronda o Brasil. Contra ele se erguem todos os poderes: o juiz Moro e a candidata Luciana Genro; a Lava Jato e os pastores evangélicos; o centro e os governistas... No entanto, longe de ser a utopia, o espectro de Lula é a reedição de uma experiência passada de melhorias sociais regadas com os favores à direita.

Ao abandonar a luta de classes ele quis governar no reino deste mundo e não em outro. Ele uniu o favor e a mudança: dois componentes contraditórios e fundantes da política. A fúria punitiva do judiciário levaria à supressão dos dois. Mais moderado, Marcelo Freixo prefere retirar só o lado mal da política e ficar com o bom, qualquer que seja ele. Infelizmente, essa não é a forma como as contradições são superadas.

A débâcle do governo petista seria a oportunidade para isso. Mas catapultado pelas pesquisas eleitorais, o impedimento judicial de Lula parece conseguir o contrário: a reunião da esquerda em torno do seu direito de concorrer à presidência.

 

As consequências dessa exclusão podem se traduzir numa radicalização como quer a esquerda com Guilherme Boulos? Afinal ele é o único líder de um movimento social relevante hoje.

O problema é que se "eleição sem Lula é fraude", apresentar uma alternativa no day after do seu julgamento é violar sua própria palavra de ordem.

Boicotar as eleições é impensável para a esquerda. Afinal, ela já se despediu das verbas sindicais e perderia também mandatos eletivos. Mas o preço de concorrer sob uma intervenção judicial pode ser a abstenção de uma parte do eleitorado de Lula, tornando irrelevantes as instituições e a própria esquerda.

Ganharia a extrema Direita. Mas cuidado, patriotas! Um Estado assim pode se dissolver nos cartéis da antipolítica e não haveria sequer uma esquerda para canalizar a violência de todos contra todos.

* É PROFESSOR DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA NA USP   

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