Wilton Junior / Estadão
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Análise: Helena Witzel tem semelhanças e diferenças com Adriana Ancelmo

Advogadas, a atual e a ex-primeira-dama do Rio integraram escritórios de advocacia alvo de suspeita de receber recursos ilegais para seus maridos

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 05h00

RIO - Helena Alves Brandão Witzel é a primeira primeira-dama do Rio a ser investigada durante o mandato do marido no Palácio Guanabara. Guarda com Adriana Ancelmo, ex-mulher do ex-governador Sérgio Cabral Filho - condenado por corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa -, algumas semelhanças. Ambas são advogadas e de personalidade forte. Integraram-se a escritórios de advocacia que acabaram investigados por, supostamente, receber recursos ilegais para seus maridos. Viraram personagens da crise política brasileira, que se arrasta desde 2015 - e não acaba.

Até agora, no caso de Helena, há diferenças marcantes. A mulher do governador Wilson Witzel (PSC) ainda é  investigada apenas preliminarmente, em um inquérito, com outros suspeitos. Não foi condenada a nada - a investigação está no início e, em tese, pode inocentá-la.  Ela atraiu, porém, a atenção de policiais federais e procuradores da República. Seu escritório, o Helena Witzel Sociedade Individual de Advocacia, tem contrato com a DPAD Serviços Diagnósticos Ltda. A empresa tem como sócio Alessandro Duarte, suposto operador de Mário Peixoto, preso na Operação Favorito. A ação investiga desvios nos hospitais de campanha do Rio.

Firmado em 2019, o contrato resultou em pagamentos mensais à banca de Helena. O dinheiro é referente a honorários advocatícios. Segundo a decisão do ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que autorizou as buscas, na Operação Placebo, a investigação até agora não encontrou os serviços referentes  às entradas de dinheiro. Helena será chamada a se explicar nas investigações. Em nota, Helena Witzel afirmou que prestou serviços para a empresa apontada pelo MPF, tendo recebido honorários, emitido nota fiscal e declarado regularmente os valores na declaração de imposto de renda do escritório”

Durante o governo Cabral, o escritório de Adriana Ancelmo teve crescimento rápido e incomum,  como revelou na época o Estadão. O motivo foi a explosão de clientes no período: concessionárias de serviços públicos, grandes empresas, entidades empresariais. Houve quem fizesse, por meio dele, pagamentos ilegais. O primeiro casal vivia então uma vida faustosa. Os dois moravam em amplo apartamento no Leblon, viajavam ao exterior, iam de helicóptero para o Palácio Guanabara e a casa de Mangaratiba.

Tudo isso acabou. Adriana já foi condenada a mais de 36 anos de prisão. Por ter, na época, filho menor de 12 anos, ficou inicialmente em prisão domiciliar. Depois, a Justiça permitiu que saísse durante o dia, usando tornozeleira eletrônica. O ex-governador já soma penas de mais de 280 anos de cadeia. Enfrenta outras ações.

Foi possivelmente a Adriana e a Cabral que Witzel se referiu nesta terça. No pronunciamento em que protestou inocência e atacou o presidente Jair Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), o governador afirmou que as buscas não tinham achado "joias" em seus endereços. No auge do escândalo de Cabral, os caros adereços de ouro e pedras preciosas da ex-primeira-dama, comprados em dinheiro vivo e sem recolher impostos, causaram espanto.

Até o momento, nenhuma acusação parecida chegou aos Witzel. O casal, até pouco depois da eleição, ainda morava no Grajaú, um bairro na zona norte carioca com jeito de cidade interiorana. Mantinha hábitos simples. Tomava café  em uma pequena padaria a cerca de cem metros de sua casa. Helena até alegava ter conta no açougue da praça próxima. As coisas, porém, podem mudar no Rio. No Estado, todos os ex-governadores eleitos pós-1982 que ainda estão vivos passaram pela prisão depois dos mandatos.

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