Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Análise: Ganho político dos atos pode ser efêmero ao insistir na lógica de apontar inimigos

Atos de domingo não foram espontâneos, mas sim estimuladas pelo presidente, seus filhos, lideranças do PSL e pelos bolsonaristas nas redes

Rodrigo Prando*, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2019 | 09h29

Domingo, 26/05/19, o país foi palco de uma nova manifestação, que tomou as ruas, mas, desta vez, em apoio ao Governo de Jair Bolsonaro. Não foi pífia como os adversários gostariam e tampouco estrondosa como os bolsonaristas almejavam. O saldo, contudo, foi positivo para o governo, dando-lhe capital político, especialmente num momento complicado em que sua desaprovação supera a aprovação em recente pesquisa, bem como más notícias na economia e a já constante dificuldade de articulação política junto ao Congresso Nacional. A pergunta, aqui, é o que o governo fará com esse capital político que lhe foi adicionado? Vejamos algumas questões.

Há, em primeiro lugar, que se reconhecer a legitimidade da manifestação – desta última e a contrária ao governo -, pois, sempre, no horizonte democrático pode-se ser a favor ou contra, desde que se respeite o Estado Democrático de Direito, os princípios republicanos e não se incorra em violência. Por uma questão de lógica e de honestidade intelectual reconhecer a vitalidade das vozes das ruas é não chamar nenhum dos lados de “idiotas” ou de “massa de manobra”. Ou todos são idiotas manobráveis ou, então, estão no seu direito à livre expressão de seu pensamento.

Um segundo ponto a ser entendido é que Bolsonaro e os próprios manifestantes recuaram, em sua maioria, de vociferar contra a chamada “velha política”, cujo foco seria emparedar o Congresso e, até, o Supremo Tribunal Federal. E o presidente fez certo e não sair às ruas, visto que isso poderia lhe trazer o risco de enquadramento em crime de responsabilidade por incitar o ataque às instituições do Estado. Houve, obviamente, episódios de bolsonaristas que, sim, concordam e defendem a tese que seria mais fácil governar sem o Poder Legislativo e sem o Poder Judiciário.

Um feito assaz positivo foi o entendimento de que a reforma da previdência e o pacote anticrime de Moro, principalmente, foram afirmados, pelos manifestantes, como pontos essenciais não só do governo, mas da sociedade brasileira.  Em terceiro lugar, essa manifestação não pode ser entendida como uma fotografia e sim como parte de um filme que se iniciou com o novo mandato presidencial, assim, se a foto de domingo foi boa para o governo, já o filme é muito ruim até agora.

A fala de Bolsonaro, após os atos de domingo, asseverou que as manifestações foram “espontâneas” e “um recado a [sic] velhas práticas”. Sabidamente, não foram espontâneas e sim estimuladas pelo presidente, seus filhos, lideranças do PSL e pelos bolsonaristas nas redes sociais. Inclusive, neste aspecto, mostrou-se que a disposição não é só virtual e que se pode contar com presença nas ruas: mais um ponto para o governo. Agora, afirmar que foi um recado às velhas práticas é, novamente, reafirmar o teor do texto compartilhado pelo presidente de que o país é ingovernável fora de conchavos.

Em tudo, para mim, reside, aqui, o busílis da questão: há, sim, um viés autocrático, ora latente, ora claro, tanto na fala presidencial quanto em parte dos manifestantes. Interditar o diálogo com os políticos por entender que são eivados de todos os vícios, males, é desprezar o exercício da política. E sem a força do argumento o que sobre é o argumento da força. Buscar, implicitamente, atacar deputados e senadores é esquecer que todos, nas duas casas, são legitimados pelo voto popular, da mesma maneira que o presidente. Novamente, por questão de lógica e honestidade intelectual, não se pode valorizar, apenas, o voto que “me” elegeu e desconsiderar e demonizar o voto que elegeu “o” outro. No limite, o poder, para não ser absoluto, é alicerçado em três esferas: Executivo, Legislativo e Judiciário – e, com isso, há os freios e contrapesos em que os poderes devem conviver em harmonia.

Se, por um lado, apresentou-se a força do mundo virtual bolsonaristas com presença real nas ruas; por outro lado, nomes e movimentos importantes dentro do campo da direita, dos conservadores, deixaram de apoiar o governo. Nomes como MBL, Kim Kataguiri, Lobão, Janaína Paschoal, entre outros evidenciaram se não um rompimento, ao menos um distanciamento das teses governistas no que tange à mobilização de domingo. E, neste sentido, esses nomes implicam numa clara derrota para o bolsonarismo e isso é empiricamente verificável pelo ataque que todos foram alvos nas redes sociais e nas ruas, ontem.  

Retomando a pergunta inicial: o que fará o governo com esse ganho de capital político? Difícil dizer. Seria ótimo que trouxesse à tona uma agenda positiva e maior e melhor diálogo com os atores políticos e a sociedade. Acho, todavia, que esse ganho pode ser efêmero ao insistir com a lógica de governar elegendo inimigos e manter a tensão que pode continuar a esgarçar nosso tecido democrático e institucional.  

Como reagirá o Congresso? Penso em três cenários: 1) Políticos (na Câmara e Senado) cansados dessa peleja com o Executivo buscarão uma saída menos traumática e uma convergência de pautas objetivando a superação dessa crise política; 2) Deputados e senadores, com os presidentes das duas casas, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, sentir-se-ão incomodados e fragilizados e, por isso, aceitarão o tratamento dispensado a eles por Bolsonaro? Ou Maia, em particular, e o Centrão, no geral, deverão endurecer e partir para o ataque, paralisando ainda mais um governo já bem atrapalhado? Veremos. O filme não está nem na metade...

*Rodrigo Prando é cientista político e professor na Universidade Mackenzie, de São Paulo.

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