Análise: frente ampla democrática é incompatível com iliberalismo

Vitória de Joe Biden sobre Donald Trump animou gente de amplo espectro ideológico a defender no Brasil uma aliança da direita à esquerda contra o bolsonarismo

Cláudio Couto*, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 21h45

A vitória de Joe Biden, batendo o populista de direita, Donald Trump, animou gente de amplo espectro ideológico, da direita à esquerda. O que uniu pessoas de posições políticas tão distintas na celebração da derrota trumpista foi a vitória da democracia (com todos seus requisitos) sobre o autoritarismo, inerente a quaisquer populismos, que tal desfecho representou.

Por isso, rapidamente se começou a defender no Brasil uma aliança ampla, da direita à esquerda, contra o bolsonarismo e sua vocação autoritária. Nesse contexto se dão conversas entre políticos e aspirantes a políticos de distintas posições, na tentativa de construir pontes. Faz sentido.

Estrela ascendente na esquerda, o governador do Maranhão, Flávio Dino, conversa com muita gente, inclusive o centro-direitista Luciano Huck – que tem como mentor o centrista e bem-sucedido ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung. Na Bahia, a centro-esquerda pedetista se uniu à direita carlista na disputa pela Prefeitura de Salvador. O PT segue ausente, com algumas exceções, como Fernando Haddad.

Agora, Huck conversa com Sérgio Moro e se noticia possível chapa entre ambos em 2022. Mas aí a ideia de frente democrática esboroa. O jacobinismo judicial lavajatista é tão iliberal – e, portanto, antidemocrático – quanto o bolsonarismo. Embora o combate inclemente à corrupção tenha seduzido certos liberais, trata-se de uma contradição: frente tão ampla a ponto de incluir até quem se guia pelo autoritarismo que tal aliança pretende combater.

* Professor de Ciência Política na FGV EAESP e produtor do canal 'Fora da Política Não há Salvação'

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