Análise: errático formulário para gestão da crise vai perdurar

O governo colocou no balcão da política nos últimos dias dois pacotes para serem claramente negociados com a sua base aliada. Um, indigesto, é repleto de medidas impopulares, tem viés econômico e como principal destaque a volta de um imposto em um momento em que a inflação, o desemprego e o endividamento das famílias crescem. O outro é mais digerível, tem viés político e um nome, reforma administrativa. Visa diminuir gastos no próprio governo de modo a capacitar um discurso que sustente a defesa do aumento de impostos do pacote econômico. É vendido como um aceno à sociedade, mas se trata de um prato a ser saboreado apenas pela classe política, tendo em vista seus efeitos praticamente nulos em termos de economia de recursos públicos.

Caio Junqueira, O Estado de S. Paulo

19 de setembro de 2015 | 22h00

Na ligação entre um e outro pode estar a sobrevida da presidente Dilma Rousseff ou a sua queda. Se o Planalto colocar em negociação os espaços da reforma administrativa, utilizá-los para reaglutinar sua base no Congresso e conseguir aprovar ao menos parte do pacote de medidas econômicas, o governo pode até conseguir respirar por mais um tempo. A um ano das eleições municipais, o meio político está evidentemente com o olho na macropolítica de Brasília e seu imprevisível desfecho. Mas político só sobrevive com voto, que vem das bases, que são movimentadas pelos 5.565 prefeitos do País. Assim, aprovar aumento de receitas compartilhado com os municípios atende tanto à engrenagem da micropolítica quanto ao redesenho da Esplanada de forma que aliados possam ter mais acesso, por dentro da administração, a recursos financeiros da União que acabem sendo drenados para as prefeituras.

É imensa, contudo, a capacidade da atual gestão de errar na estratégia política. A possibilidade de algum respiro para a presidente nestes dois pacotes tem capacidade de se esvair facilmente se o governo e o PT quiserem manter o desproporcional tamanho de sua presença na Esplanada em relação a seus aliados e, pior, não trazer para o jogo político quem o entende e domina, o PMDB.

Não surpreende, mas os sinais emitidos pelo Planalto foram dados neste sentido. O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, a despeito da alta rejeição dentre os aliados, fica onde está. Além disso, assume a articulação política o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT que, apesar do bom trânsito no Congresso, mostra que mesmo com uma presidente sob alto risco de queda, o errático formulário petista para gestão da crise vai perdurar.

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