Luis Macedo/Agência Câmara
Luis Macedo/Agência Câmara

Análise: Embates entre elite política e Judiciário ficaram evidentes

O caso da senadora Selma Arruda (Podemos-MT) mexe bastante com o corporativismo dos membros do Legislativo: de alguma forma, muitos deles estão expostos a cometer crimes eleitorais

Vitor Oliveira*, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 05h00

O Parlamento não é apenas um lugar de representação popular, é fundamentalmente um lugar de presença da elite política. Os dois casos recentes envolvendo processos de afastamento de parlamentares são distintos. O caso da senadora Selma Arruda (Podemos-MT) certamente mexe bastante com o corporativismo dos membros do Legislativo: de alguma forma, muitos deles estão expostos a cometer crimes eleitorais, já que todos disputam eleições. 

Já no caso do deputado Wilson Santiago (PTB-PB), por não ser de natureza eleitoral, talvez em um primeiro momento a Câmara não acate a decisão da Justiça de afastá-lo, mas considero mais fácil o corporativismo não se instaurar. O potencial de contágio de imagem, em um ano em que muitos disputarão eleições, é muito grande.

No contexto da Lava Jato, ficou mais evidente o embate de setores do Judiciário com essa elite política, ancorada no Parlamento. Há uma crônica informalmente instituída de que nenhum parlamentar deseja assumir o comando da Conselho de Ética. Há um certo “jogo de empurra”, uma vez que quem assume tem que lidar com a questão do corporativismo e se indispor com alguns de seus pares, o que leva algumas pessoas a propor, por exemplo, que episódios envolvendo a ética parlamentar não sejam julgados pelos próprios congressistas.

Vale lembrar que muitos dos parlamentares que apoiaram o afastamento do senador Delcídio Amaral, em 2016, depois se arrependeram, como ficou claro na ação de proteção ao também senador Aécio Neves (PSDB), um ano depois. Era um momento em que a Lava Jato ainda se estabelecia como força jurídica e política no País e, de alguma forma, muitos dos adversários do partido que estava no poder à época, o PT, viram a oportunidade política como algo mais relevante que o corporativismo.

*Cientista político e diretor da consultoria Pulso Público

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