Marcos Corrêa/PR
Marcos Corrêa/PR

ANÁLISE: Pacto entre Poderes dependerá de desarmar espíritos que se alimentam da guerra

Nenhuma tentativa prosperará caso não busque a solução de conflitos por meio da construção (e não imposição) de acordos

Marco Antonio Teixeira*, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2019 | 05h02

Jair Bolsonaro surpreendeu ao acenar com uma proposta de pacto com os demais poderes da República pelas reformas estruturais no País. Isso ocorre pouco depois de o STF e parlamentares aparecerem mencionados em cartazes e bonecos carregados por parcela dos presentes nas manifestações em defesa do governo como algozes das reformas e beneficiários de uma suposta “velha política” que o bolsonarismo estaria tentando combater. Tal proposta surpreende por contradizer a perspectiva apontada por diversos analistas políticos e membros do Congresso Nacional: a de que o grau de conflito entre o governo e o legislativo aumentaria em razão de o presidente ter compartilhado imagens da manifestação e elogiado o propósito das mesmas.

Feito esse destaque é preciso indagar duas questões. A primeira é se a proposta do presidente resiste ao que uma eventual tuitada vinda de quem controla suas redes sociais pode provocar. Não custa lembrar que recentemente um simples tuíte provocou uma enorme troca de farpas entre Bolsonaro e Rodrigo Maia logo após os dois terem iniciado um entendimento público pela tramitação da reforma da Previdência e o pacote anticrime.

A segunda é se realmente o pacto se sustenta frente a pautas tão controversas. Para que o entendimento proposto vá adiante é importante que o governo abandone pressupostos comuns ao núcleo duro do bolsonarismo que trata a negociação política como corrupção e que demoniza um dos principais valores civilizatórios da democracia: entendimento político e a convivência pacífica entre os diferentes.

Nenhuma tentativa de pacto prospera caso não busque a solução de conflitos por meio da construção (e não imposição) de acordos. Para tanto, se faz necessário desarmar espíritos que se alimentam da guerra política. Se o caminho a ser percorrido for esse, o País já terá um grande ganho: o fato de o presidente e parcela de seu grupo mais próximo finalmente reconhecer que numa democracia o eleito deve governar para atender a todos, inclusive aqueles que nele não votaram. É esperar para ver. O dinamismo da política recente no Brasil não permite fazer apostas duradouras.

* PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE GESTÃO PÚBLICA DA FGVSP

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