Gabriela Biló/ Estadão
Gabriela Biló/ Estadão

Análise: Do ‘Big Bang’ aos fogos de artifício

Sem política, é impossível agradar a seres de interesses tão opostos: os pobres e o mercado

Carlos Melo*, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 12h28

Há dias, o ministro Paulo Guedes prometeu ao Congresso Nacional medidas reunindo diversos programas sociais no Renda Brasil. Também reformas, decisões de investimentos e outras providências; tudo sem romper o teto de gastos – âncora que amarra a tolerância do mercado financeiro ao governo. Em suas palavras, seria o Big Bang”, capaz de fazer recomeçar a vida nesse pedaço de mundo, onde arde o Brasil. 

Até aqui, porém, o “Big Bang” é só trovão distante. Sem política, é impossível agradar a seres de interesses tão opostos: os pobres e o mercado. Sem arbitragem política, promessas viram pó: restam então parcos R$ 300 e ainda as promessas – mais promessas – de sempre. Quando pressões fogem ao controle, a paralisia se estabelece.

Frustrado, o presidente mandou parar tudo: não tiraria “de pobres para dar a paupérrimos”. Em momento raro de razão, compreendeu que tirar de quem tem quase nada para dar a quem nada tem não é justiça; é alargar o desespero. Miséria compartilhada só aumenta. Mas foi num gesto brusco, público, sem cuidado; um carrinho por trás em seu ministro. 

Bolsonaro não admite que a desinteligência com Guedes revela sua própria fraqueza: com seu apoio, as corporações só fizeram aproximar o piso ao teto fiscal, deixando o País corcunda na estreiteza de um pé-direito baixo, feito de improviso por arquitetos senhores de si, mas de pouco talento. 

O presidente se exaspera: cobertor curto, não quer descobrir os próprios pés, agasalhados pela contingência da pandemia que, ao impor abrangente assistência social, revelou o buraco e a ironia da desigualdade no Brasil: pobres não têm partido, são pragmáticos e retribuem com “popularidade”. “Auxílios” garantem, ao menos, o fim de feira. O que não é muito, mas é tudo.

Porém, o que fazer com fiscalismo mobilizador de agentes econômicos que, no entroncamento de interesses de 2018, foram aliados de primeira hora: pedir patriotismo? Como os pobres da pandemia, o mercado é igualmente pragmático: não tem amigos, tem medo e interesses. Também pelos lados, as paredes da casa se afunilam... 

Foi no assistencialismo que Bolsonaro vislumbrou o projeto possível, mais adequado a seu potencial intelectual e aos limites de sua visão política. Mas não pode operar a descoberto, gerar a percepção do abismo logo mais à frente. Livrar-se de Guedes para substituí-lo por um igual, para quê? Melhor com ele, que perdoa. 

O ministro joga o jogo das promessas, submete-se a carrinhos e defende o agressor. Amolda-se à “velha política” – na novilíngua bolsonarista, a “novíssima (velha) política”. Não o faz por capacidade de articulação, mas com rodeios: agora é a evasiva reforma Administrativa, “que não atingirá nenhum dos atuais servidores”, como determinou Bolsonaro. É o presente que não fecha. 

A economia cai feito um viaduto e, com escassa habilidade, ministro e presidente equilibram-se na corda bamba da ambiguidade; prometem “Big Bang” , soltam fogos de artifício. A matemática é inclemente; a política, cruel. O tempo sacode: cedo ou tarde, alguém cai.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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