Análise: Divergência, sim; polarização, não

Os efeitos da pandemia impactam diretamente as políticas de saúde e educação, que merecem uma redefinição do próprio papel do Estado

Jorge Abrahão, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2020 | 05h00

A primeira mensagem do resultado da votação em primeiro turno em São Paulo não deixa dúvidas de que o projeto de extrema direita sofreu fragorosa derrota. Passaram Bruno Covas e Guilherme Boulos que, em que pese suas diferenças ideológicas, de visão do papel do Estado, de economia e das prioridades da cidade, ocupam o mesmo campo democrático. 

O atual prefeito, que assumiu em 2017 como vice na chapa de João Doria, fez uma gestão de continuidade, dando prosseguimento a políticas como a concessão à iniciativa privada de serviços e espaços públicos, como a Zona Azul e os parques municipais, além das tentativas de flexibilização nas regras do zoneamento, barradas pela Justiça e que acabaram não avançando no Legislativo. Propostas como a construção de novos CEUs e UPAs são políticas que refletem a continuidade de administrações de diferentes partidos e que dialogam com anseios da população das periferias. Na pandemia, teve postura de obediência à ciência e assumiu decisões que buscaram preservar a vida, em oposição ao governo federal.

Enquanto isso, Boulos, do PSOL, chega a este segundo turno como uma grande surpresa, a partir de uma campanha apoiada no fundo eleitoral e em doações, que, somados, alcançam pouco mais de 20% do volume de recursos de seu adversário. Seu partido nunca havia chegado a um segundo turno na cidade com o maior colégio eleitoral do País. A cidade que já elegeu Luiza Erundina, sua atual candidata a vice-prefeita, mais uma vez abre espaço a uma candidatura de esquerda, o que amplia o espectro do debate neste segundo turno e evita a polarização baseada no cenário político nacional. 

Boulos busca se diferenciar por ser um candidato que vive na periferia da cidade e que traz mais fortemente pautas sociais, citando inúmeras vezes na campanha o combate às desigualdades na cidade como uma prioridade em seu programa de governo. 

Duas visões de cidades bastante distintas se encontram (e, portanto, divergem) neste segundo turno, e teremos a oportunidade de conhecer mais profundamente as propostas das candidaturas em um cenário tão desafiador. Os efeitos da pandemia impactam diretamente as políticas de saúde e educação, que merecem uma redefinição do papel do Estado.

*COORDENADOR GERAL DA REDE NOSSA SÃO PAULO

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