ANÁLISE: Disciplina está acima das reflexões

As declarações do general Hamilton Mourão não são pouca coisa, mas não são o muito que a repercussão política conferiu ao episódio

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2017 | 23h45

As declarações do general Hamilton Mourão não são pouca coisa – afinal, foram feitas por um oficial da linha superior do Exército, peito coberto de condecorações, em um evento público. Mas não são o muito que a repercussão política conferiu ao episódio. A rigor, a fala está disposta com as diretrizes tratadas pelo comandante da Força, o general Eduardo Villas Bôas, defensor da obediência à lei e da subordinação à Constituição Federal – que confere às Forças Armadas o dever de garantir a preservação da integridade do estado nacional eventualmente ameaçado.

O problema está no tom intenso adotado pelo chefe da Secretaria de Finanças em sua exposição – de resto e de acordo com companheiros de farda, bem próprio do general. Há dois anos a mesma atitude marcial implicou a transferência de Mourão do estratégico Comando Sul para o Quartel General, em Brasília. Em seis meses passará para a reserva.

O fato só evoluiu para a condição de incidente por causa da decisão do ministro da Defesa, Raul Jungmann, que resolveu convocar o comandante Villas Bôas, sugerindo, talvez, uma punição administrativa. A repercussão interna não foi boa. Os oficiais mais jovens, bem formados, mantêm o foco em questões profissionais e têm forte preocupação com uma agenda objetiva – o cumprimento dos programas prioritários de modernização, a qualificação do pessoal, o emprego correto da tropa, a recomposição dos recursos orçamentários.

É ingênuo supor que entre esses quadros não haja nenhuma diversidade de pensamento político. Mas é correto ter a certeza de que acima e além do campo das reflexões está o conceito da disciplina. O general que colocou tanques e seis mil soldados na estrada na madrugada de 31 de março de 64 é um outro Mourão, de um outro tempo da história, 53 anos no passado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.