Felipe Rau|Estadão
Felipe Rau|Estadão

ANÁLISE: Demissão de Levy mostra que governo não consegue reduzir percepção de risco

"Sinais tortos" do Executivo inibem efeito positivo que se espera com encaminhamento da reforma da Previdência

Rafael Cortez*, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2019 | 15h58

Há dois pontos a destacar após o pedido de demissão do presidente do BNDES, Joaquim Levy. O primeiro é a forma que a mudança ocorreu. A troca veio como resultado de uma exposição por parte do presidente Jair Bolsonaro de um nome importante na condução da política econômica. Não foi a primeira vez que ele expôs nomes próximos ao Planalto, seja no âmbito político ou no âmbito da condução da política econômica.

O segundo ponto tem a ver com a motivação dessa decisão. Parece haver no bolsonarismo uma tentativa de dar ao BNDES um caráter político, além da importância na gestão da política econômica. A passagem de Levy por governos do PT foi o suficiente para gerar um descontentamento com o presidente, mesmo que ele tivesse credenciais muito associadas à política econômica sinalizada pelo governo. O caráter político imposto ao BNDES é utilizado como uma forma de marcar diferenças em relação ao petismo, a partir das críticas que foram sendo desenhadas ao papel do banco nos governos anteriores. Essa dimensão se materializou de forma significativa na eleição de 2018.

O episódio da demissão é mais um ruído nos sinais emitidos pelo governo, que se soma a outras ocasiões, como a reação do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao relatório da reforma da Previdência aprovado na comissão temática da Câmara dos Deputados. O texto foi objeto de duras críticas por parte de Guedes, apesar do valor proposto de economia ser bastante significativo.

Esses “sinais tortos” acabam reforçando o grau de incerteza de percepção de risco em relação à condução da política econômica do governo. Isso inibe o efeito positivo que se espera com o encaminhamento de uma reforma da Previdência bastante relevante em termos de impacto das contas públicas. O ano de 2019 deve se encerrar com o crescimento econômico esperado para o cenário pessimista. Esse aparente paradoxo tem a ver com a ideia de que o governo é uma “usina de crises”, para usar uma expressão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Novamente, o efeito disso é que a credibilidade da política econômica vai ficar cada vez mais associada a Paulo Guedes. No plano político, a percepção é que o governo é fraco e que o destino da reforma da Previdência depende cada vez mais da dinâmica do interior do Legislativo. De todo modo, o início do governo Bolsonaro é uma administração que não consegue reduzir a percepção de risco, mesmo com o encaminhamento da reforma da Previdência.

*CIENTISTA POLÍTICO DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA

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