ANÁLISE: Delação de Funaro é troféu para Janot

Com o acordo do “operador” do PMDB na Caixa, Temer volta ao centro das atenções e das tensões políticas que tanto refletem na economia

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2017 | 23h41

Vai começar tudo de novo? Essa é a pergunta que não quer calar em Brasília desde ontem, depois que o “corretor” Lúcio Funaro assinou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República, onde o chefe Rodrigo Janot, que deixa o cargo em 17 de setembro, é acusado por governistas de “perseguir” o presidente Michel Temer.

Como Funaro era o “operador” do PMDB na Caixa, Temer volta ao centro das atenções – e das tensões políticas que tanto refletem na economia – poucas semanas depois do desgastante julgamento na Câmara para se livrar (por ora) da denúncia da PGR por corrupção passiva.

Funaro, dono de informações privilegiadas de quem participou de tudo isso por dentro, travou uma espécie de corrida de obstáculos contra o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha para ver quem conquistaria primeiro o acordo de delação e suas benesses. Nos dois casos, o alvo central foi Temer. 

Desde o início, Funaro correu na frente de Cunha, que também está preso. O “operador” é considerado mais vulnerável e suscetível a relatar a participação de Temer e o funcionamento do esquema, enquanto a força-tarefa sempre torceu o nariz para as versões de Cunha e para a possibilidade de amenizar sua pena.

“Ele não quer fazer delação, quer fazer manipulação”, resumiu um representante da Lava Jato, acusando Cunha de mentir, dissimular e tentar aproveitar a delação como moeda de troca, perseguindo adversários e favorecendo aliados – os poucos que lhe restam.

Além do próprio Temer, é o seu governo quem entra no foco com a delação de Funaro, porque o PMDB da Câmara inclui Cunha, os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco e os ex-ministros Henrique Eduardo Alves, que está preso, e Geddel Vieira Lima, em prisão domiciliar.

É com base nesse grupo e nesses nomes que Janot sonha e trabalha há meses com a possibilidade de apresentar duas novas denúncias contra Temer: por organização criminosa e obstrução da Justiça. Depois de Joesley Batista, da JBS, Funaro tende a ser mais um algoz de Temer e mais um troféu para Janot nos seus derradeiros dias na PGR.

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