Luis Macedo/Agência Câmara
Luis Macedo/Agência Câmara

Análise: Decisão da Câmara de salvar Wilson Santiago mostra nova face da velha política

Na primeira decisão do ano, Parlamento ignorou decisão do Supremo e salvou mandato de deputado denunciado por corrupção

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 13h20

BRASÍLIA - A primeira decisão do ano da Câmara mostrou com todas as letras a nova face da velha política quando, nesta quarta-feira, 5, os deputados decidiram salvar o colega Wilson Santiago (PTB-PB). Denunciado por corrupção pela Procuradoria-Geral da República e afastado do cargo em dezembro pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, durante o recesso parlamentar, Santiago obteve o perdão de seus pares.

Foi um acordo alinhavado com integrantes do Centrão, bloco que dá as cartas na Câmara, e contou com o apoio da maioria, do MDB ao PC do B. Apesar do alto índice de renovação do Congresso, nas eleições de 2018, as práticas continuam as mesmas.

O corporativismo atravessou o Salão Verde e chegou ao Azul. No mesmo dia da absolvição de Santiago, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), anunciou que vai submeter a cassação de Juíza Selma (Podemos-MT) à Mesa Diretora do Senado. Conhecida como  “Moro de saias”, Juíza Selma foi cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em dezembro, acusada de caixa 2 e abuso do poder econômico na campanha de 2018. Mesmo assim, ela continua com imóvel funcional, cota parlamentar e um salário mensal de R$ 33,7 mil, enquanto aguarda o veredicto de seus pares.

Os dois casos são emblemáticos e representam uma queda de braço entre o Congresso e o Judiciário. Embora, ao longo dos processos, seja provável que tanto Santiago quanto Selma percam os mandatos, por pressão das redes sociais, é curioso que suas sobrevidas tenham ocorrido no mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro destacou a “harmonia” entre os Poderes.

O discurso amistoso foi feito no almoço oferecido por Bolsonaro, nesta quarta, a Alcolumbre e aos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Supremo, Dias Toffoli -- além de outras autoridades, como o procurador-geral da República, Augusto Aras, e o presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio de Noronha.

O tom era de conciliação, mas, nos bastidores, a crise continua na Praça dos Três Poderes. Para Bolsonaro, o foco no Congresso pode até ser um bálsamo porque desvia a rota de turbulência do Palácio do Planalto - com problemas Secretaria da Comunicação e na Casa Civil - para o outro lado da rua. O “alívio”, porém, é momentâneo. Em ano de eleições municipais, o efeito bumerangue está logo ali.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.