ANÁLISE: De agenda positiva a novo inferno astral

A tentativa de fazer desta semana um momento de votações no Congresso Nacional para mostrar que a agenda de reformas continua de pé se tornará difícil

Rodrigo Stumpf González*, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2017 | 23h20

A política brasileira cada vez mais se assemelha a uma novela de folhetim, em que o autor, para manter a atenção do leitor, realiza reviravoltas na história a cada final de capítulo. No capítulo anterior o senador Aécio Neves era reintegrado ao Senado, criando uma sensação de alívio na base governamental de Michel Temer. O último episódio que inverte essa expectativa é a prisão do ex-ministro Geddel Vieira Lima.

Não que Temer deva ter receio de que Geddel venha a se tornar um delator. O padrão usado nas operações da Polícia Federal com o Ministério Público Federal (MPF) de solicitar prisão preventiva sob o argumento que há embaraço às investigações e depois negociar com o preso uma delação premiada que inclua prisão domiciliar e redução de sentença tem funcionado com os empresários, mas não com os políticos. Eduardo Cunha, Sergio Cabral, José Dirceu e Antonio Palocci, entre outros, se mantiveram calados.

As consequências na frente política certamente serão sentidas. A tentativa de fazer desta semana um momento de votações no Congresso Nacional para mostrar que a agenda de reformas continua de pé se tornará difícil. Em cada contato com a imprensa os questionamentos, seja ao presidente, seja às lideranças do governo no Congresso, vão envolver a prisão do ex-ministro.

Esse efeito, que certamente não escapou às autoridades que solicitaram a prisão de Geddel, prejudica a estabilidade da base de apoio a Temer no Congresso, em um momento em que o PSDB balança entre ficar no governo ou sair. Não menos importante é o fato de que neste ínterim o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), terá de se manifestar sobre a tramitação ou arquivamento dos pedidos de impeachment contra Temer. E a perspectiva de votar rapidamente e arquivar o pedido de abertura de processo contra Temer também ficará prejudicada. O que poderia ser uma semana de agenda positiva para o governo, com uma reavaliação da ida à reunião do G-20, passa a ser um inferno astral.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA POLÍTICA DA UFRGS

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