ANÁLISE: Crônica de uma sobrevida anunciada

Na medida em que o tempo passa, as vulnerabilidades do governo Temer se acumularão

Marcus André Melo*, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 05h00

Não é surpresa para ninguém que o presidente Michel Temer iria pular a fogueira da denúncia de Janot. O que esperar de sua situação após o arquivamento?  A situação é paradoxal. Na medida em que o tempo passa, as vulnerabilidades do governo Temer se acumularão : a outros pedidos de abertura de inquérito por Janot ou pela nova procuradora-geral da República irão somar-se novas delações explosivas (de Eduardo Cunha, de Lúcio Funaro, da OAS) e o aprofundamento de investigações em curso em torno do chefe do executivo e de sua entourage.

Por outro lado, em sentido contrário, a passagem do tempo arrefecerá os incentivos para seu afastamento. Ao aproximar-se do ano final de seu mandato, o argumento pragmático em torno do traumatismo potencial causado pela descontinuidade institucional se fortalece.  Por que afastar um presidente cujo mandato expira em poucos meses e que poderá ser responsabilizado após o término de sua imunidade temporária? Argumento consequencialista que se fortalecerá se a economia estiver melhorando.

O saldo líquido desses dois fatores que operam em direção contrária é que o presidente estará cada vez mais individualmente fragilizado em meio a uma coalizão coesa em torno de sua sustentação. Coesão, diga-se de passagem engendrada pelo medo da Lava Jato.

Temer é um pato manco (um político em final de mandato que não tem muito a oferecer em virtude dessa situação). Na realidade é um pato super-manco devido a atual denúncia e as futuras que virão. Terá baixa capacidade de fazer barganhas por que o horizonte temporal das transações reduz-se muito: suas trocas politicas são à vista – envolvem a máquina e medidas admnistrativas!  Ele não poderá oferecer proteção contra a Lava Jato ou acesso a patronagem governamental. Sequer terá influência sobre seu sucessor. A máquina do PMDB no entanto estará entregue a um condomínio de oligarcas que devem ter um papel importante na definição da candidatura fora do partido que irá apoiar (porque não tem um candidato presidenciável). O papel que jogará nesse condomínio – e no fundo partidário de quase meio bilhão que disporá – terá importância sobre sua sobrevida.

* Professor Titular de Ciência Política da UFPE

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.