ANÁLISE: Com destino traçado, presidente escreve testamento político

Dilma Rousseff não espera realmente voltar à Presidência da República. Salvo por um milagre, o seu destino já está decidido desde a votação pela abertura do processo de impeachment. Por isso, sua carta não tem os senadores como os verdadeiros destinatários.

Lincoln Secco*, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2016 | 05h00

Ao reconhecer seus erros e omissões, a presidente afastada não fala ao mundo oficial da política, mas ao povo como uma categoria isenta das tramas de quem deseja derrubá-la. É só a ele que ela diz ter ouvido. É dele que lhe advém o “carinho”. É a ele que se dirige sua “humildade”.

Obviamente que a carta também cumpre as formalidades esperadas: defesa de um compromisso para retomada do crescimento, o plebiscito sobre antecipação de eleições e a reafirmação de sua inocência.

No que tange à corrupção, há uma clara insinuação contra o seu arqui-inimigo Eduardo Cunha, afinal, ela não possui “contas no exterior”. E também a um pacto pela impunidade discutido nos porões da Câmara dos Deputados para que o caixa 2 deixe de ser um crime.

Ela se compromete com a reforma política e a moralização do financiamento de campanha. No primeiro caso se trata de voltar a uma proposta que o seu vice-presidente Michel Temer e o Congresso atacaram já em 2013, logo depois das manifestações de junho. A outra proposta é, obviamente, uma impossibilidade. Qualquer um sabe que 100% dos políticos profissionais a rejeitariam. Não diante da plateia, é claro, mas nos bastidores.

Por tudo isso, vê-se logo que Dilma Rousseff escreveu o seu testamento político. Não tem a dramaticidade da carta-testamento de Getúlio Vargas, embora ela cite a tortura a que a ditadura militar a submeteu e a injustiça que sofreria ao ser condenada pelo Senado. 

Apesar disso, ela se pauta pelo tom conciliador que marcou os governos petistas, mas que não foi correspondido pelos seus adversários. Não há nenhuma convocação para que aquele povo a quem ela ouviu com carinho saia às ruas em defesa de seu mandato. Ela prefere cair sozinha porque luta apenas pela sua biografia. 

Ela deixa o poder para disputar a história.

* PROFESSOR LIVRE DOCENTE DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA NA USP

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