DIDA SAMPAIO / ESTADÃO
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Análise: Capital político e popularidade de Moro geram desconforto em Bolsonaro

Afeito ao presidencialismo de confrontação, Bolsonaro tem a capacidade de manter as relações políticas sempre tensionadas

Rodrigo Augusto Prando*, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2020 | 12h26

Intenções e movimentos do Presidente Bolsonaro, mais uma vez, buscaram minar a autoridade do Ministro Moro enfraquecendo-o. Cogitou – mas já recuou, por enquanto – de dividir a pasta sob o comando de Moro em duas: Ministério da Justiça e Ministério da Segurança. Tirar a segurança pública de Moro seria um choque negativo justamente numa área que apresenta bons resultados e um desprestígio para o ministro.

É notório que Bolsonaro, afeito ao presidencialismo de confrontação, tem a capacidade de manter as relações políticas, com adversários e aliados, sempre tensionadas. Especialmente com Moro, o presidente sabe que há um potencial adversário caso o ministro decida concorrer à Presidência da República em 2022.

O capital político e aprovação do ministro superam Bolsonaro e essa é a maior sensação de desconforto para o presidente. Moro, assim como Guedes, dão a sustentação simbólica do atual governo, um na segurança e no combate à corrupção e o outro na economia com agenda liberal.

Trazer Moro para o ministério foi o grande trunfo de Bolsonaro que, sempre, verbalizou críticas à esquerda em geral e ao PT e Lula em particular, todavia, com o Moro as críticas se materializaram na figura do maior expoente da Lava Jato, cujo ápice foi a condenação e prisão de Lula. Desde a primeira desautorização de Moro por Bolsonaro, no episódio da nomeação de uma especialista em segurança pública que foi desconvidada, não foram poucas as rusgas entre os dois.

Passado um ano de governo, o ex-juiz e atual ministro já começou a entender melhor o ambiente político e as diferenças entre o juiz que manda e o ministro-político que tem que dialogar e negociar. No Roda Viva, Moro, no balanço geral, saiu-se bem e, certamente, gerou inquietação, angústia e ciúmes no núcleo bolsonarista.

O que seria de 2022 se Moro romper com o governo e caminhar na direção, por exemplo, de Doria e Huck ou filiar-se a um partido e sendo cabeça de chapa? Como afirmou Bolsonaro acerca do possível desmembramento do ministério de Moro: “A chance no momento é zero, tá bom? Não sei amanhã, na política tudo muda [...]”. E Moro, no aludido programa de entrevistas, ao ser questionado de suas pretensões presidenciais, aduziu que o candidato do governo é Bolsonaro e, na sequência, negou-se em assinar documento no qual deixaria claro que não disputaria a presidência.

Em termos racionais, a fala de ambos pode ser assim interpretada: Bolsonaro pode, sim, enfraquecer e esvaziar o poder de Moro e este pode sair do governo e lançar-se candidato ou ser vice de outro político mais experiente.  Se, em política, tudo pode mudar no dia seguinte, imaginemos até 2022...

* Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Doutor em Sociologia pela Unesp

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