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Análise: Bolsonaro trocou combate à corrupção por defesa de sua família

Presidente foi eleito com o compromisso de combater a corrupção, mas o que se assistiu de 1º de janeiro para cá foi um lento processo de abandono desse combate pelo governo

José Álvaro Moisés*, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2019 | 11h30

Esta operação envolvendo a família do presidente Jair Bolsonaro sinaliza a importância política que teve a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) permitindo que informações dos órgãos de controle – como a receita federal ou o antigo Coaf - possam ser acessadas para instruir inquéritos criminais. Foi a partir dessa decisão, por exemplo, que o Ministério Público do Rio retomou as investigações sobre o senador Flávio Bolsonaro.

Ainda não se apuraram completamente as responsabilidades desse caso. As pessoas podem especular a respeito, baseadas no que a mídia tem publicado, mas não temos ainda um inquérito concluído. Portanto, é preciso cautela. Mas caso se verifique o envolvimento das pessoas citadas no caso, como o senador Flávio Bolsonaro e o seu ex-assessor Fabrício Queiroz, isso poderá ter grande impacto sobre a posição do governo e a proposta da Aliança Pelo Brasil de combater a corrupção.

Jair Bolsonaro foi eleito presidente em um vácuo deixado pelas lideranças democráticas que, a meu juízo, não assumiram claramente o compromisso de combater a corrupção nas eleições de 2018. Bolsonaro ocupou o vácuo e se comprometeu a fazê-lo. Mas o que se assistiu de 1º de janeiro de 2019 para cá foi um lento processo de abandono desse combate pelo governo.

A questão pareceu se deslocar mais para a defesa de pessoas da família do presidente. É claro que denúncias nesse sentido ainda precisam ser verificadas. Ninguém pode afirmar, com certeza, que houve esse envolvimento. Mas as investigações avançam nessa direção, indicando que essa perspectiva é considerada por quem tem a responsabilidade de fazer as investigações.

Caso se confirme, sem falar da impressão de que o governo se afastou do combate à corrupção, isso afetará seriamente tanto a imagem do partido em processo de organização, como do próprio presidente. Todo o tempo ele parece mais preocupado em defender os seus do que tomar distância e garantir a autonomia e a independência que as investigações exigem.

Exemplos disso foram suas tentativas, meses atrás, de interferir em investigações em curso tanto no âmbito da receita como da Polícia Federal. Isso afeta a qualidade da democracia, pois o império da lei só é efetivo quando governos, quaisquer que sejam suas orientações ideológicas, aceitam se eximir de influir ou de controlar os organismos de fiscalização e monitoramento.

* É professor de Ciências Políticas da USP

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