Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Análise: Bolsonaro resiste a caminhar para a centro-direita

Saber o momento de alterar um esquema tático vitorioso é fundamental na trajetória de líderes bem-sucedidos

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2019 | 05h00

“Não se muda time que está ganhando” é um conhecido dito da sabedoria popular, que poucas pessoas sensatas negariam ser verdadeiro para a maioria das situações. O grande estrategista, no entanto, é aquele que consegue mudar o time antes de começar a perder – e, portanto, quando ainda está ganhando, ou no mínimo empatando.

Essas são as decisões mais difíceis, que exigem verdadeira maestria. “Mudar o time” pode ser visto como uma metáfora para mudanças em geral – da forma de jogar, da própria estratégia. Saber o momento de alterar um esquema tático vitorioso é fundamental na trajetória de líderes bem-sucedidos.

O cientista político Octavio Amorim Neto, da Ebape/FGV, nota que Jair Bolsonaro é um político que construiu uma carreira política vitoriosa baseada na radicalização e na polarização. Foi assim que ele disputou e conquistou inúmeros mandatos parlamentares e, finalmente, a própria Presidência.

A partir dos tuítes presidenciais com uma cena pornográfica no carnaval de rua de São Paulo instalou-se entre os analistas políticos uma discussão que pode ser sintetizada de forma esquemática em duas interpretações. 

A primeira visão é que os tuítes foram um impulso tosco e mal pensado do presidente, que resultaram num erro que pode até atrapalhar a aprovação da reforma da Previdência e a condução da parte “séria” do governo. A desvalorização do dólar no pós-carnaval seria uma reação do mercado à mancada presidencial, nessa narrativa.

A segunda interpretação é que a ação nas redes sociais durante o carnaval é parte de uma estratégia bem mais planejada do que se julga. Bolsonaro estaria cultivando o seu núcleo duro de apoiadores muito conservadores, que veem o combate ao tipo de comportamento dos protagonistas do vídeo como um objetivo importante do governo e uma das razões pelas quais votaram no atual presidente. Alguns apoiadores podem até ter achado excessivo que Bolsonaro tenha exposto as famílias brasileiras ao vídeo, mas se escandalizaram bem mais com o conteúdo em si do que com sua divulgação.

O presidente, portanto, estaria atiçando a polarização entre conservadores e liberais em costumes. Pessoalmente, penso que as duas visões não são completamente excludentes. Líderes populistas carismáticos, como Bolsonaro, muitas vezes guiam-se por impulsos, mas isto não quer dizer que haja ausência de uma estratégia de fundo. A estratégia é justamente a de explorar o suposto “feeling” excepcional do líder no trato com as massas.

O tempo dirá o quão grave foi o erro dos tuítes de Bolsonaro, se é que de fato foram um erro. Entretanto, numa visão mais de médio e longo prazo, como analisa Amorim Neto, efetivamente a ação recente do presidente nas redes sociais é preocupante em termos das perspectivas de Bolsonaro na dificílima agenda de governar o País.

A razão, retomando o fio inicial da coluna, é que o presidente parece aferrado à forma de jogar com que sempre ganhou, e reluta em abandoná-la. Para Amorim Neto, se o presidente permanecer teimosamente no campo da direita (ou até extrema-direita, eu diria), este vai ser um governo extremamente polarizador que terá muita dificuldade em estabelecer uma maioria parlamentar de 60% para aprovar a reforma da Previdência. “Bolsonaro tem que usar todos os instrumentos da política, tem que fazer concessões pragmáticas e programáticas, desde que não firam a moralidade pública”, diz Amorim Neto. E esse é o perfil de um líder agregador e capaz de fazer pontes, e não de um incendiário em busca de atiçar os ânimos e as tensões sociais com uma guerra cultural permanente.

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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