Dida Sampaio/ Estadão
Dida Sampaio/ Estadão

Análise: Atropelado pela realidade, Bolsonaro piora a situação

Enquanto governadores correm contra o tempo no combate ao coronavírus, o presidente se esmera em ser Midas às avessas: transforma em fogo, fúria e pó aquilo em que coloca a mão

Carlos Melo*, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 14h08

Nos manuais de política e bom senso, recomenda-se prudência, não tornar pior o que é ruim. Dos líderes, se requer habilidade para desinflar conflitos, corrigir rotas. Temperança, capacidade de aglutinação; somar, não dividir. Colocar interesses coletivos acima dos pessoais. Olhar para a história. Ocioso dizer, não vemos isso com o presidente Jair Bolsonaro. Enquanto governadores correm contra o tempo, o presidente se esmera em ser Midas às avessas: transforma em fogo, fúria e pó aquilo em que coloca a mão. Sem ocultar objetivos, revelou outro dia que sua preocupação é a economia porque, levada à breca, seu governo acaba. 

Nessa visão, a economia é apenas instrumento do governo. Não se destina às pessoas, ao bem-estar, mas ao governo.

Seu desespero e obsessão é 2022. Nessa gana, luta contra o mundo. Na teleconferência, seu alvo foi o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), tendo por referência as eleições de 2018 e 2022. Feito de ressentimento e ansiedade, despreza o presente, ignora horizonte mais amplo, desconhecendo que no longo prazo estaremos todos vivos, apenas se não sucumbirmos ao curto. 

Na crise humanitária do Covid-19, é premente cuidar do presente para garantir o futuro. Do contrário, “no curto prazo, estaremos todos mortos”. O presente imediato interessa porque sem ele não haverá futuro, sequer 2022. Revelou isso no pronunciamento à Nação. Seu foco está na economia porque é seu “big tíquete” para a reeleição. Cálculo frio: “se a política de Distanciamento Social resultar em pouco mortos, foi vão o esforço”; aproveita-se de que, ao final, saberemos o número de mortes, não a quantidade de vidas salvas. A estratégia é transformar provável sucesso em fracasso. Perdeu o timing da crise, sabe que os frutos do distanciamento social não serão seus. 

Ao fim, dirá: “comprometeu-se a economia por uma ‘gripezinha’”. O cérebro do “atleta” não considera a alternativa sofisticada: “preservar vidas, com menor perda econômica”. Não está programado para isso. Desconhece a prudência e joga pedras em quem assumiu responsabilidades, a começar por seu ministro da Saúde. Está só. Mas do seu barulho ecoa angústia.

*Carlos Melo é cientista político e professor do Insper.

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