Análise: As 'três mortes' de Antonio Palocci

Há pontos a destacar na prisão de Antonio Palocci. O primeiro diz respeito ao réu, o que poderia ter sido e ficou pelo caminho. O ex-ministro foi o mais promissor dos colaboradores de Lula: encarnava o diálogo possível entre a economia moderna, o mercado financeiro e as expectativas de mudanças; era uma liderança nova e serena, de incomum capacidade da expressão de confiança necessária ao governo. 

Carlos Melo*, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2016 | 05h00

Não é exagero dizer que Palocci foi o símbolo da credibilidade; chegou-se a falar de “lulismo-paloccismo”, numa alusão da aliança entre duas forças: a vital, de Lula, e a racional, de Palocci. Mantido no governo Dilma, seria o “pau da barraca” – a ilha de racionalidade no mar tortuoso da idiossincrasia dilmista.

Num momento no qual a incapacidade de criação de lideranças está mais do que provada, a prisão do ex-ministro é uma perda melancólica. À parte da justeza ou não do ato, o fato é que Palocci, figurativamente, morreu três vezes: no caso do caseiro (2006), na denúncia de enriquecimento (2011) e, agora, com a prisão. 

Sua prisão é mais um retrato da confusão centenária entre o público e o privado, entre governos e partidos, entre o interesse geral e os interesses de grupos. O agente público age como um agente secreto – operador político – de um projeto de poder que se sobrepõe à razão do Estado e da sociedade. Normalmente, é assim – salvo honrosas exceções. O desafio dos advogados de Palocci será mostrar que ele está neste rol, das exceções. E mais difícil do que convencer a Justiça será convencer a opinião pública.

*É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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