JF Diorio/Estadão
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ANÁLISE: ‘Arsenal atômico’ de Eduardo Bolsonaro não traz nenhuma solução

Parlamentar não avaliou o peso do que disse na condição de presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa da Câmara

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2019 | 05h10

O arsenal atômico como garantia de paz pretendido pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) traz muitos problemas e nenhuma solução. Há 29 anos, em 1990, o Brasil decidiu abdicar do desenvolvimento de armas nucleares, sistemas que já haviam sido proscritos pela Constituição de 1988.

O País, sob o governo de José Sarney, fez a escolha em condições estratégicas favoráveis: depois de um longo e nebuloso percurso, o núcleo do programa nuclear mantido em sigilo pela Marinha desde o início dos anos 1970, atingira suas principais metas – era capaz de produzir máquinas de tecnologia própria para enriquecer urânio e, mais importante, sabia o que fazer com isso. A Aeronáutica e o Exército participavam fortemente do empreendimento, batizado Projeto Neblina em algumas áreas de inteligência.

O programa nunca parou, embora tenha sido desacelerado. E é único em certa peculiaridade: embora sustentado por uma Força Militar, é aberto a inspeções e monitorado por organizações internacionais de controle como a Agência de Energia Atômica, de Viena. As declarações de Eduardo Bolsonaro não fortalecem essa respeitada atitude. Uma linha vermelha intransponível no mundo das superpotências é a da opção pelo emprego do conhecimento nuclear com objetivos militares.

Com certeza, nas últimas horas, o Brasil, o tema, e a exposição do deputado circularam nas mesas de decisão mais importantes do planeta. Não foi pelos motivos certos. Na esteira do discurso haverá muita preocupação e eventualmente consequências. Apenas por seguir adiante com as pesquisas na área, o País enfrenta periodicamente dificuldades na importação, por exemplo, de determinados produtos que possam vir a ser, ainda que remotamente, vinculados ao emprego na construção de artefatos atômicos. É a menor das sequelas. Em outra escala está o corrosivo elenco das sanções. O parlamentar Bolsonaro não avaliou o peso do que disse na condição de presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa.

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