TV Brasil / Reprodução
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Análise: Arranjo entre CBF e TV Brasil é obscuro e lembra chavismo

Utilizar emissora para enaltecer o atual ocupante da Presidência, que está claramente engajado na campanha por sua reeleição, é errado e não deveria ser permitido

Carlos Eduardo Lins da Silva, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2020 | 05h00

Nem a Confederação Brasileira de Futebol nem a TV Brasil são entidades a serviço do governo federal. Muito menos do presidente da República.

O arranjo obscuro feito entre as duas para a transmissão, anteontem, do jogo entre as seleções brasileira e peruana em Lima teve entre seus resultados, no entanto, beneficiar a imagem de Jair Bolsonaro.

A CBF é uma associação privada. O histórico policial de alguns de seus ex-presidentes, como Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, mostra que ela com frequência esteve envolvida em crimes.

Mas, na medida em que esses delitos não envolvam dinheiro do erário do País, o problema é entre ela e as autoridades encarregadas de fazer cumprir-se a lei.

A TV Brasil é outra história. Ela pertence a uma empresa (EBC), operada pelo Poder Executivo nacional com dinheiro dos impostos pagos por todos os cidadãos brasileiros, a quem ela deve servir e oferecer explicações sobre seu uso.

Ela é chamada de emissora pública. Portanto, deve prestar contas à cidadania. Utilizá-la para enaltecer o atual ocupante da Presidência, que está claramente engajado na campanha por sua reeleição, é errado e não deveria ser permitido.

Foi o que aconteceu anteontem com os abraços a Bolsonaro enviados pelo locutor da partida na TV Brasil.

A operação revela-se ainda mais nebulosa quando se sabe que faz parte de uma estratégia do presidente em sua guerra com a Rede Globo, que em muitos momentos se assemelha a um confronto contra a liberdade de imprensa, parecido, aliás, com o que fez o regime de Hugo Chávez com a RCTV na Venezuela no início deste século.

* PROFESSOR DO INSPER

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