Análise: Após Demóstenes, nenhum outro político deve ser punido pelo Escândalo Cachoeira

Com a cassação do senador, integrantes da CPI que investiga o caso ficam mais confortáveis para blindar outros parlamentares supostamente envolvidos com esquema do contraventor

Marcelo de Moraes, de O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2012 | 11h47

BRASÍLIA - A cassação do agora ex-senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) acaba com um enorme desconforto para seus colegas de Congresso. Acusado de ser o principal elo político do esquema de tráfico de influência montado pelo contraventor Carlinhos Cachoeira, seu expurgo do Senado garante o fim de um mal-estar admitido pelos próprios parlamentares.

A farta quantidade de telefonemas comprometedores para Cachoeira já tinha garantido há muito tempo a condenação de Demóstenes diante da opinião pública. Não foi à toa que a imagem mais usada pelos senadores depois da sessão de cassação foi lembrar que Demóstenes já estava morto politicamente. Faltava apenas enterrar.

Mas o principal desconforto que termina diz respeito à necessidade de produção de resultados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o Escândalo Cachoeira. Com a cassação de Demóstenes, os integrantes da comissão já podem argumentar que as irregularidades resultaram em punição severa para algum político, uma vez que o ex-senador goiano perdeu o mandato e se tornou inelegível por oito anos.

Com isso, os integrantes da comissão ficam muito mais confortáveis para blindar outros políticos investigados por supostamente terem algum tipo de envolvimento com o esquema de Cachoeira, como é o caso dos governadores de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, além do prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), entre outros.

Na prática, senadores e deputados admitem que a cassação de Demóstenes já garante um resultado prático diante da opinião pública e poupa o Congresso da acusação de produzir uma "pizza" para proteger aliados poderosos. Afinal foi apenas a segunda vez na história que o Senado cassa um dos seus. Até mesmo Demóstenes chancelou essa avaliação quando disse, em seu discurso de defesa, que era o "bode expiatório" do escândalo.

Outra informação importante produzida pelo processo de votação da cassação do ex-senador foi a revelação da quantidade de senadores que se manifestaram contrariamente à perda de mandato de Demóstenes. Foram 19 votos contrários (certamente incluindo nessa conta o voto do próprio Demóstenes), além de cinco abstenções e uma ausência, que contam a favor da defesa do político goiano.

A maioria desses votos aponta o espírito de corpo de setores expressivos da Casa e o temor desses parlamentares - cujas identidades é protegida pelo voto secreto - que um dia investigações de irregularidades também contra eles. E o placar só não foi mais elevado a favor de Demóstenes por ele ter péssima relação com muitos de seus colegas, uma vez que construiu sua fama de político sério justamente pelo tom excessivamente crítico que sempre adotou.

Sem a presença de Demóstenes e com a proximidade do calendário eleitoral, os parlamentares apostam que devem se reduzir as investigações do Caso Cachoeira dentro da CPI, abrindo espaço para a construção de outras agendas bem menos negativas.

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