ANÁLISE: Ação controlada foi criada para combater crime organizado

'Jamais imaginei que esse instrumento seria usado contra um presidente da República', conta o criador da técnica

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2017 | 00h48

Era 1995, o então secretário nacional Antidrogas Walter Maierovitch propôs ao presidente Fernando Henrique Cardoso a adoção de um novo sistema de investigação que permitisse um combate mais eficaz ao tráfico de drogas e ao crime organizado. Seu nome era ação controlada. O sistema previa que o policial pudesse deixar de prender um bandido em flagrante para segui-lo e assim chegar ao patrão da droga, ao laboratório que a refinasse para quadrilhas e facção criminosas. “Jamais imaginei que esse instrumento seria usado contra um presidente da República”, conta Maierovitch.

A ação controlada nasceu da experiência americana de combate ao crime organizado. Foi a primeira grande delação de um mafioso – Joe Valachi, obtida por Robert Kennedy, então procurador-geral – que serviu de base para a chamada Lei Rico, parte da legislação antimáfia americana, de 1970. O modelo foi adotado mais tarde na Itália para o combate à máfia. “Não interessava pegar um traficante vendendo heroína. Era muito mais importante segui-lo a fim de localizar o laboratório de refino da heroína.” Nos anos 1990, a legislação de combate à máfia passou a ser usada para enquadrar a corrupção dos partidos políticos na Itália, durante a chamada Operação Mãos Limpas. Em um dos seus mais famosos episódios, ela prendeu em flagrante Mario Chiesa, do Partido Socialista Italiano, quando recebia uma propina de um empresário. O dinheiro havia sido xerocopiado e marcado por meio das assinaturas dos procuradores responsáveis pela força-tarefa que apurava o caso. 

No Brasil, a estratégia de marcar o dinheiro e esconder chips em malas para o rastreamento do dinheiro foi usada pela PF no sequestro do cantor Wellington Camargo, irmão de Zezé Di Camargo e de Luciano, ocorrido em 1998. Os federais esconderam transmissores no dinheiro do resgate e conseguiram, assim, prender a quadrilha. Foi também nos anos 1990 que a PF começou a usar a ação controlada – o primeiro alvo foi o tráfico de drogas. O delegado Getúlio Bezerra foi um dos que adotaram o método. Assim, em 1999, ele prendeu dois oficiais da Aeronáutica acusados de traficar drogas para a Europa em aviões da FAB. 

Como na Itália, os instrumentos pensados contra a criminalidade organizada se mostraram fundamentais no Brasil para investigar casos de corrupção. Mas aqui as coisas foram mais longe. “Essa ação controlada não tem paralelo no mundo. Nunca uma ação havia pego um presidente. Nem em Watergate”, diz Maierovitch.

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