ANÁLISE: A necessária legitimidade internacional

O discurso de Michel Temer cumpriu o protocolo diplomático brasileiro. Não ousou na forma, no tom ou na substância, mas passou em revista, em frases simples, todas as linhas-mestras da política externa. Ao menos na retórica, ficou a impressão de que o novo governo quer preservar o universalismo que baliza as relações do País com o mundo.

Guilherme Casarões, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2016 | 23h47

Nesse contexto, chama atenção a ausência de menção aos países emergentes, parte indissociável do discurso brasileiro na última década. Ao mesmo tempo, Temer recupera a noção de “globalização assimétrica”, proposta por Fernando Henrique Cardoso na Assembleia-Geral de 2001. Tais elementos sugerem que o novo governo se conforma em assumir o Brasil como potência média, que abraça as normas multilaterais sem necessariamente assumir protagonismo sobre sua transformação.

Ao chamar de “salutar” a diversidade ideológica na América Latina e ao afirmar sua crença no “poder do diálogo”, o presidente suaviza o estilo diplomático mais assertivo do chanceler José Serra na relação com alguns vizinhos. Isso não impediu, contudo, que as delegações desses países se retirassem da plenária da ONU diante da fala do presidente, que consideram ilegítimo.

Ao dedicar a parte final do discurso a uma longa menção à Constituição e à força das instituições políticas, Temer quis neutralizar a “narrativa do golpe”. Não é a primeira vez que a ONU é palco da política doméstica: Dilma valeu-se de expediente idêntico, com sinais trocados, em seu discurso de 2015. Se, à época, a pauta era a denúncia do impeachment, hoje Temer trata de justificar o processo aos interlocutores globais. O fechamento do discurso de Temer mostra a necessidade de reforçar sua legitimidade internacional e que os temas de política externa, embora importantes, seguirão sem grandes novidades na nova administração. 

*É PROFESSOR DA FGV/EAESP

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