Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Análise: A importância do ‘fio de bigode’ no trato político

No Congresso de hoje, a fatura política chega até por WhatsApp; sem o que foi combinado, ninguém vota nada

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2020 | 05h00

O descumprimento de acordos celebrados pelo Planalto com deputados e senadores já foi responsável pela queda de ministros em um passado não muito distante. A importância de honrar a palavra dada é sempre vista nos salões Verde e Azul do Congresso como peça fundamental do jogo político para a sustentação de qualquer presidente da República. 

Na atual temporada, o personagem escolhido como “vilão” é o ministro da Economia, Paulo Guedes. Os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), asseguram que Guedes deu sinal verde para o trato sobre a repartição do dinheiro do Orçamento, mas ele nega. Diante desse imbróglio, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos – responsável pela articulação entre Planalto e Congresso –, saiu dizendo que o acerto teve o aval de Guedes e do presidente Jair Bolsonaro

No primeiro mandato de Dilma Rousseff, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, caiu após cinco meses, em junho de 2011, porque tinha fama de não honrar o fio do bigode. Foi deslocado para a Pesca. Seu apelido era “garçom do Planalto”. Motivo: só levava e trazia pedidos. 

Em fevereiro de 2015, o então líder do PMDB Eduardo Cunha foi eleito presidente da Câmara porque formou um bloco coeso, o Centrão, e ficou conhecido por financiar colegas e cumprir tratos, mesmo para o mal. Dessa forma, impôs derrota ao governo Dilma, vencendo no primeiro turno a disputa contra o petista Arlindo Chinaglia, patrocinado pelo Planalto. 

No Congresso de hoje, a fatura política chega até por WhatsApp. Sem o que foi combinado, ninguém vota nada. É o toma lá dá cá em novo estilo, com o loteamento de cargos batizado como “banco de talentos”. Só para lembrar, em outubro de 2015 o então chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, foi transferido para a Educação sob bombardeio porque vetava acordos. Sem base no Congresso, Dilma sofreu impeachment em 2016. Réu da Lava Jato, Cunha está preso. 

A maldição da cadeira de articulador do governo no Congresso também atinge o titular da Economia porque ele é o dono da chave do cofre. Guedes, o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro, está sendo queimado. É mais um perigo à vista na Praça dos Três Poderes. 

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