ANÁLISE: A hora e a vez do governo compartilhado

Temer não dispõe de outra saída a não ser aceitar que Rodrigo Maia faça uma administração parceira, um parlamentarismo na marra

João Domingos, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2017 | 05h18

Na entrevista que concedeu logo depois do encerramento da sessão que mandou a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer para o arquivo, anteontem, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), praticamente apresentou um programa de governo.

Disse, entre outras coisas, que está muito afinado com as posições do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que é preciso fazer a reforma da Previdência enxuta, centrando-se na idade mínima e na mudança do sistema público, manter o foco nas políticas sociais, e aprovar, com urgência, projetos para melhorar a segurança pública.

Que Maia já vinha se mostrando disposto a compartilhar o governo com Michel Temer, isso todo mundo já sabia. Só não se esperava que apresentasse sua plataforma de trabalho tão rapidamente, emendada com a sessão que vetou a abertura da investigação contra o presidente.

Maia, embora tenha alguns desentendimentos públicos com Temer e com alguns ministros, tem sido um aliado fiel do governo, por identidade programática.

Ao contrário de muitos senadores e deputados, ele já percebeu que defender reformas na economia, reduzir privilégios e diminuir o tamanho do Estado, pode render votos. Tentará, então, passar para a sociedade, a imagem de um reformista, de alguém que foi muito importante para que o governo tivesse êxito em alguns de seus projetos.

Temer não dispõe de outra saída a não ser aceitar que Rodrigo Maia faça uma administração parceira, um parlamentarismo na marra. Se o presidente da República recusar a intromissão do presidente da Câmara, corre o risco de não conseguir aprovar mais nada e passa a ter um governo nulo. Se aceitar a ajuda, pelo menos pode dizer que fez um governo congressual, como sempre quis, e que durante sua gestão tocou projetos importantes.

 

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