Análise: a Guerra de 1932

Quando a "Revolução Paulista" irrompeu há exatos 80 anos eram pequenas as possibilidades de vitória. Em 1931 Góis Monteiro já tinha deslocado tropas de Alagoas e de Santa Catarina para o Vale do Paraíba fluminense, prevenindo uma sublevação militar em São Paulo.

Lincoln Secco*, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2012 | 15h43

O comando do movimento já sabia que estava militarmente derrotado no dia 13 de julho após o deslocamento da II Divisão de Infantaria para a fronteira com o Rio de Janeiro. Era evidente o despreparo. A Força Pública estava dividida e o general Klinger, comandante geral do movimento, chegou sem tropas. A falta de apoio do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais selou o destino paulista. Então por que continuar numa "luta heroica e vã" como a qualificou Edgard Carone?

São Paulo resistiu por três meses. Afinal era dotado de um pequeno exército e de uma logística superior a de outros estados. Fez uma rápida reconversão de sua indústria para a guerra e mostrou muitas inovações bélicas. O Interventor Pedro de Toledo, aclamado governador em 10 de julho teve expressivo apoio da população, apesar do distanciamento de boa parte da classe operária. As oposições eram minoritárias (trotskistas, anarquistas e comunistas) e suas lideranças estavam convenientemente encarceradas. A resistência mostraria ao governo central o respaldo popular à causa. Como disse o próprio Klinger: "Para não dar por perdida a partida antes do tempo, a senha do alto comando foi durar".

No fim da guerra Getúlio Vargas não tratou o território paulista como terra ocupada. Nomeou um interventor ligado ao jornal O Estado de S. Paulo, o engenheiro Armando Salles de Oliveira (genro de Julio de Mesquita), perdoou metade da dívida dos cafeicultores, anistiou os líderes rebeldes e convocou a Assembleia Constituinte. Ela já estava prevista, mas é possível que para os dirigentes paulistas nada indicasse que Getúlio Vargas cumpriria a palavra.

Embora a Constituição já fosse o lema oficial de 1932, o Golpe do Estado Novo é que ajudou os paulistas a construir a memória oficial da guerra civil como uma Revolução Constitucionalista. A historiografia acadêmica e os vencedores, por outro lado, não foram condescendentes. Aquilo teria sido uma revanche, na expressão do próprio Vargas.

Decerto o constitucionalismo era uma bandeira oportuna para oligarquias desalojadas do poder. Ainda assim, não se tratava apenas de um interesse corporativo disfarçado. Toda ideologia esconde interesses particulares com a capa da universalidade.

A elite paulista tomou em armas porque sua hegemonia só podia ser reposta pela força. Mas tentar derrubar o governo sem uma ideia não era mais possível. No curto prazo ela foi derrotada porque a consistência dos valores da "ação revolucionária" era pequena diante das proporções do movimento, como notou Florestan Fernandes. A guerra mobilizou gente de mais para os limites ideológicos dos seus líderes.

A reação não era à "Revolução de 30". Ora, uma das forças da Frente Única Paulista era o Partido Democrático que tinha apoiado a Revolução, enquanto o grupo do jornal O Estado de S. Paulo viu com simpatia a Coluna Prestes. Um dos lideres de 1932 foi o mesmo da revolta tenentista de 1924: o gaúcho Isidoro Dias Lopes. Macedo Soares, presidente da Associação Comercial de S. Paulo fora acusado de colaborar com os revolucionários de 1924. Pedro de Toledo tinha sido partidário do Marechal Hermes da Fonseca. Não é a toa que os paulistas tenham escolhido o termo revolução para seu movimento, seguindo uma tradição das dissidências oligárquicas da República Velha.

A Revolução Brasileira que teve seu auge em 1924-1926 foi coroada com a vitória da Aliança Liberal em 1930. Mas essa vitória inicia não uma radicalização e sim o seu imediato retrocesso. O momento era o de reintegrar os tenentes na hierarquia militar, isolar os recalcitrantes e disciplinar os operários.

Assim como aquela Aliança, a mobilização de 1932 é uma reação político-militar no interior do próprio leque de forças que gerou a revolução de 1930. Disputava-se o rumo da nova Ordem com Vargas e não uma Restauração que já não era possível.

Mas enquanto 1932 tinha uma sintaxe política liberal, Vargas havia sequestrado ao movimento operário a memória de suas lutas com uma linguagem social. O radicalismo ficou restrito à Aliança Nacional Libertadora (1935) de Prestes e Miguel Costa, os mesmos líderes da Coluna! Certos ou não, eles olhavam para o futuro. Vargas e seus adversários só disputavam a melhor forma de perpetuar o máximo de passado num presente irremediavelmente novo.

*Lincoln Secco é Professor de História Contemporânea na USP

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