ANÁLISE: A eleição incerta

Tradicionalmente  a  eleição  para  a  Prefeitura  paulistana é  parada  duríssima  para  os ocupantes  do  cargo.  Mesmo  antes  de  vigorar  a  reeleição para  chefes  de  Executivo,  prefeitos sofriam  para  fazer  o  sucessor.  Paulo Maluf,  que  elegeu  Celso Pitta,  e  Gilberto Kassab,  que  se reelegeu, são as poucas exceções; indicativo de que governar a megalópole é tarefa ingrata. 

Cláudio Gonçalves Couto*, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2016 | 23h55

O  atual  prefeito,  Fernando Haddad,  não  se  vê  em  situação  diferente  e  vive  ainda  um paradoxo.  As  políticas  emblemáticas  de  sua  gestão,  relacionadas  à  mobilidade  urbana,  são aprovadas  pela  maioria  dos  paulistanos,  mas  ele  mesmo  não é.  Enquanto  92%  dos  paulistanos aprovam as faixas e corredores de ônibus, e 51% apoiam tanto a redução de velocidade nas vias como  os caminhos ciclísticos, 55% consideram a gestão ruim ou péssima e 73%  a desaprovam. Desse  jeito,  não é  de  se  espantar  que  46%  digam  que  não  votariam  nele, patamar  superior  a todos os postulantes. 

Contudo, quando se olha para a  concorrência, vê-se que a situação de Haddad não é tão desconfortável  quanto  seus  pífios  7%  de  intenções  de  voto  sugerem.  Afinal,  excetuado  Celso Russomanno -  que  pode  morrer  na  praia  da  ficha  suja -  quem  abre  mais  vantagem  para  o  atual prefeito  é  a  sua  ex-colega  de  PT,  Marta Suplicy,  com  10%.  E  logo  acima  dele  aparece  outra  ex-petista,  Luiza Erundina,  com  8%.  Curioso  notar  que,  somados,  os  candidatos  de  alguma  forma identificados  ao  petismo  tenham  25%  dos  votos,  patamar  equivalente  ao  de  Celso Russomanno, um ex-malufista. 

No  outro  polo  significativo  da  política  paulistana,  o  do  tucanato  (incluída  aí  a  dissidência),  João Dória  e  Andrea Matarazzo  também  não  fazem  bonito,  somando  apenas  10%  das preferências.  Ambos  têm  espaço  para  crescer,  bem  como  para  se  dilacerarem  mutuamente, levando para o pleito municipal a guerra que os tucanos paulistas e paulistanos já travaram em seu próprio ninho. 

Diante de tamanha fragmentação da disputa, acrescida ainda de  riscos judiciais, só resta uma certeza: a de uma eleição absolutamente incerta. 

* Cientista político, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV e pesquisador do CNPq

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.