Análise - Jogo duro nas manifestações de rua

Quando as ruas foram tomadas, Brasil afora, nos anos 1980, todos os times se uniram para mandar para longe os cartolas que urdiam e impunham regras impeditivas e os juízes que travavam o jogo democrático. Diferentemente do que acontece nos últimos três anos: agora os jogadores dos times em confronto estão se pegando a pau, dentro e fora do campo; e um dos lados chama por árbitro os mais podres poderes.

Valdemir Pires*, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2016 | 13h42

Não fosse o fim da exclusividade de transmissão de partidas (hoje as redes sociais se contrapõem com vigor aos grandes grupos econômicos da mídia), a marcha com o Deus Mercado e os arranjos familiares retrógrados pelas liberdades seletivas já teria se sagrado campeã, como a marcha similar dos anos 1960.

Esse rolo todo, que só a História poderá desenrolar com um mínimo de imparcialidade, desnuda os limites político-ideológicos à construção de uma nação rica, soberana e minimamente justa com aqueles que a viabilizam com seu trabalho quotidiano. Em confronto, muito claramente para quem tenha olhos e queira ver, um projeto de sociedade que se afaste da casa grande e senzala e se aproxime do sonho nórdico, que leve o Brasil dos séculos XVII-XVIII (quando estacionou em termos de visão social colocada em prática) para os séculos XIX e XX (ou seja, para a democracia e o republicanismo, quiçá meio socialdemocrata).

Nesse momento de panelas e vuvuzelas em ação, pouco se avançará, e o medo de retroceder é grande entre os que sabem o que é e quanto custou a conquista da democracia. Democracia cujas instituições, por força do perfil de alguns de seus agentes institucionais (ocupantes de cargos não eletivos, principalmente), começam a patinar, revelam ferrugens em pontos sensíveis: a imparcialidade, que deve ser ponto de partida e também de chegada nas instituições que julgam e nas organizações que informam, está sendo (se é que não foi antes, sem que a sociedade se desse conta) destruída pela extrema partidarização, praticada sem o menor pudor, como se ninguém estivesse vendo ou se quem está vendo não mereça ser levado em conta.

O jogo é duro, de jogar e de assistir. E parece não ter fim, uma partida emendada na outra, torcida mais exausta do que os jogadores que, no seu ímpeto por aparecer e acumular capacidade de jogar (e, jogando, ganhar os seus tostões, claro), não se acanham ao usar regras de basquete no campo de futebol ou de pebolim na mesa de bilhar.

* Valdemir Pires é professor do curso de Administração Pública da Unesp de Araraquara

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