Amostras de sangue de índios ianomami são repatriados ao Brasil

Material havia sido coletado sem autorização por pesquisadores americanos e enviados irregularmente para os Estados Unidos 

Beatriz Bulla, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2015 | 16h38

Brasília - Amostras de sangue do povo indígena ianomâmi coletadas sem autorização por pesquisadores norte-americanos foram repatriadas ao Brasil e entregues, nesta segunda-feira, 21, pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao líder da tribo, Davi Kopenawa. 

Esta é a segunda remessa do material ao País, após um acordo de cooperação internacional, e ainda não esgota a busca pelas coletas. O sangue foi coletado na década de 60 por um antropólogo e um geneticista norte-americanos, sem autorização da população ou do governo brasileiro, e levado aos Estados Unidos para pesquisas. Não há conhecimento sobre o resultado dos trabalhos. 

Na cultura ianomâmi, contudo, o sangue constitui restos mortais e deve seguir as cerimônias funerárias para garantir a paz dos mortos e também respeitar a tradição. "Enquanto o sangue da pessoa está presente neste mundo, aqueles que estão vivos sentem a presença 'repartida'. É um ritual de passagem", explicou a coordenadora da Câmara do MPF que atua na defesa dos povos indígenas e de comunidades tradicionais, Deborah Duprat.

De acordo com a procuradora, a Venezuela - que também abriga a etnia - começou a fazer acordos semelhantes ao Brasil para repatriar o material sanguíneo coletado. O procurador-geral da República disse que é dever da instituição "cuidar e proteger o patrimônio cultural do País, as tradições e costumes indígenas". "O Ministério Público é multifacetário. A vida do Ministério Público não se esgota em Lava Jato, a vida do Ministério Público se esgota nessa enorme diversidade de atribuição que nós temos e que desempenhamos com igual perspicácia", disse Janot.

A coleta entregue nesta segunda ao povo ianomâmi, com certa de 474 amostras, foi enviada pelo Instituto Nacional do Câncer americano. Existem ainda duas remessas de sangue do povo indígena que devem ser enviadas ao Brasil, além das já realizadas. Uma delas deve ser concretizada nos próximos meses, na expectativa do Ministério Público, pois já foi firmado acordo com a Universidade de Ohio, que mantém o material. O quarto e último envio depende de um acordo com Universidade Estadual da Pensilvânia. 

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