Amorim suspende leitura obrigatória para diplomatas

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou na quinta-feira que vai acabar com a lista de livros de leitura obrigatória para seus diplomatas, criticada pelo ex-embaixador Roberto Abdenur. Amorim insistiu, porém, que isso não significa admissão de que o Itamaraty esteja promovendo seus quadros por razões ideológicas ou que as leituras fossem "lavagem cerebral", como classificou o ex-chanceler Celso Lafer, em entrevista ao Estado.Para ele, a polêmica em torno da bibliografia obrigatória é exagerada. "Estão fazendo muito barulho por nada. São cinco livros e qualquer um passaria em qualquer escola superior de guerra até da época da ditadura", reclamou, negando se tratar de obras com viés declaradamente de esquerda. "O que existe hoje é uma patrulha ideológica às avessas. Como a política externa é avançada e tem aberto novos horizontes, isso incomoda pessoas que eram detentoras exclusivas do poder, inclusive do poder intelectual."Segundo Amorim, não há nada de ideológico ou de "lavagem cerebral" nos livros - de autores que vão do embaixador Álvaro Lins ao economista coreano Ha-Joo Chang. "Não vejo nada disso. Álvaro Lins foi embaixador de Juscelino Kubitschek e isso não tem nada de ideológico", afirmou.De acordo com o ministro, a extinção da exigência tem como único objetivo retirar de cena um argumento dos críticos da política externa. "Eles estão usando isso como pretexto", avaliou. Para Amorim, contudo, o que lhe provoca indignação é a acusação de que as promoções no Itamaraty obedecem a critérios ideológicos. "É uma ofensa grave, porque não é verdadeira", afirmou. "Acho que é muito difícil provar que não é, mas basta olhar a biografia dos que estão sendo promovidos agora. Isso é leviano."Ele contou que chegou a alertar o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, de que qualquer livro que fosse obrigatório acabaria provocando especulações. "Comentei com ele que se pusesse o Evangelho Segundo São Mateus, a Constituição e Oração aos Moços, de Ruy Barbosa, iriam dizer que era doutrinação. Vão dizer que aparece no evangelho que os homens são iguais entre si, enfim, tudo será usado pela patrulha ideológica", sustentou.Por fim, Amorim relembrou que nomeou Abdenur para ser embaixador em Washington, mas preferiu não rebater as críticas diretamente. "Abdenur pode fazer o que quiser porque está aposentado", alfinetou.

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