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Amigos e negócios

O apoio incondicional manifestado por Bolsonaro em várias ocasiões, antes e durante a visita aos EUA, a Donald Trump pode, no fim das contas, resultar em conquistas inéditas para o Brasil

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2019 | 04h05

Diz o ditado popular que “amigos, amigos; negócios à parte”. A julgar pelo saldo da viagem de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, nem sempre. O apoio incondicional manifestado em várias ocasiões, antes e durante a visita, do brasileiro a Donald Trump pode, no fim das contas, resultar em conquistas inéditas para o Brasil, caso se confirme em ações o entusiasmo da retórica dos dois presidentes nesta terça-feira.

Para o coordenador do curso de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Matias Spektor, pesquisador do histórico de reuniões presidenciais, os ganhos superam em muito os obtidos por Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff de, respectivamente, Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama.

Ele destaca principalmente o acordo para o uso comercial da base de Alcântara, a concessão ao Brasil do status de aliado preferencial extra-Otan e o apoio norte-americano ao ingresso do Brasil na OCDE, o chamado “clube dos ricos”.

Num governo em que os militares têm o peso político que adquiriram com Bolsonaro, o status de aliado preferencial permite o reaparelhamento das Forças Armadas mediante menos gastos. Da mesma maneira, os lucros com a exploração comercial de Alcântara devem reverter para as Forças Armadas, que, para Bolsonaro, foram sucateadas desde FHC.

O ingresso na OCDE, caso se concretize – e para isso será decisivo saber se Trump apenas deu um tapinha nas costas do amigo ou se de fato vai atuar –, será um carimbo valioso para a política econômica de Paulo Guedes, outro pilar do governo.

A falta de acordos comerciais específicos não prejudica o saldo da visita, diz Spektor, uma vez que nem Trump nem Bolsonaro contavam com apoio dos respectivos Congressos a propostas de retirada de incentivos neste momento. Zero a zero nesse aspecto, edulcorado com a criação ou incremento de fóruns (empresarial, de energia, etc.).

Mesmo a dualidade na retórica em relação à Venezuela não significaria tendência de Bolsonaro a embarcar numa aventura militar no país vizinho: fontes do governo diziam ontem que segue inalterada a diretriz dada pelos militares, de não intervenção, e que o brasileiro só não quis dizer um “não” na casa do seu novo melhor amigo. 

PREVIDÊNCIA

Concessões encolhem ganho com projeto dos militares

A se confirmar o cálculo apresentado pelo vice-presidente Hamilton Mourão, as compensações incluídas no projeto de previdência dos militares, a ser apresentado nesta quarta-feira, encolheram em muito o cálculo inicial da área econômica com as alterações nas aposentadorias e pensões das Forças Armadas. No material de divulgação da Nova Previdência, preparado pela equipe de Paulo Guedes para explicar o projeto, a economia em dez anos com “inatividade e pensões das Forças Armadas” é estimada em R$ 92,3 bilhões, longe dos modestos R$ 13 bilhões adiantados pelo vice. Com tamanho encolhimento da parte dos fardados no sacrifício geral que se exige (sobretudo dos servidores civis), para equalizar a Previdência, será difícil manter o discurso de que os mais privilegiados pagam mais. Isso porque o déficit per capita da Previdência dos militares é o maior de todos: R$ 99,5 mil por beneficiário, ante R$ 68,6 mil por servidor civil.

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