Americano acusa Jader de receber US$ 2 mi

O processo de cobrança de um empréstimo de CR$ 5,5 bilhões, equivalente a U$$ 2 milhões, feito pelo Banco do Estado do Pará (Banpará) em novembro de 1984 à empresa Madeira Itália Americana Comércio e Indústria (Maiame), pertencente ao industrial norte-americano George Alfred Méllen, desapareceu do cartório da 15a Vara Cível do Tribunal de Justiça do Estado, em Belém. O dinheiro desse empréstimo, afirma Méllen, teria sido repassado ao então governador do Estado e hoje presidente do Congresso Nacional, senador Jader Barbalho (PMDB-PA), por seu amigo e tesoureiro de campanha eleitoral, o empresário José Maria Mendonça. "A justificativa que o Mendonça me apresentou para repassar o dinheiro ao Jader foi de que precisava tapar saldo a descoberto no Banpará", contou o americano."Estou aqui há cinco anos e pelas minhas mãos esseprocesso nunca tramitou", afirmou ontem ao Estado a juíza da 15a Vara, Dahil Paraense de Souza. Ela mandou fazer uma busca no cartório Ana Castelo para tentar localizar os autos, mas o resultado foi negativo. O último registro da existência do processo naquele cartório data de1990. "É realmente estranho que isto esteja ocorrendo", resumiu a juíza. O que chama a atenção nesse negócio é que Méllen,embora não fosse cliente do Banpará, teve seu pedido de empréstimo deferido pela diretoria do banco em apenas quatro dias. Em dez dias, numa operação relâmpago, os U$$ 2 milhões foram liberados. Os diretores do banco foram levados por Mendonça ao escritório de Méllen Para convencer o americano e outro diretor da Maiame,Jack Rhone, a fazer o empréstimo, Mendonça colocou ações de suas empresas Copala, Eccir, Metro Engenharia e Poliplast, além de imóveis, como garantia de um contrato que firmou com Méllen. Usando de sua influência junto ao governador, Mendonça conseguiu fechar outra transação que era do agrado do americano: um contrato com o governo doEstado para a venda de 70% do excedente de energia elétrica da usina que Méllen havia trazido sobre uma balsa do Texas (EUA) para a cidade de Breves, no arquipélago do Marajó.A usina iria abastecer as serrarias do americano noporto de Corcovado, mas consumiriam menos de 30% de sua capacidade. O contrato chegou a ser aprovado pelo então ministro das Minas e Energia, César Cals, mas seria depois anulado porque uma cláusula proibia compra, pelo Estado, de energia de empresa privada para repassá-la a terceiros."Eu iria ganhar mais de 6 milhões pela venda daenergia", recorda Méllen. Ele diz que depois de consultar um dos melhores advogados do Estado, Eduardo Grandi (já falecido), concordou em fazer o empréstimo a Mendonça. "Esperei que Mendonça cumprisse sua parte e pagasse o empréstimo que eu havia feito a ele com o dinheiro doBanpará".Mendonça não honrou o compromisso de pagar oamericano, que por sua vez deixou de também pagar o Banpará. Resultado: o banco executou Méllen e este ingressou com ação ordinária contra o amigo de Jader. O último cálculo feito pelo Banco Central sobre o valorque Mendonça estaria devendo a Méllen já alcança R$ 16 milhões. "Não posso pagar o Banpará porque o Mendonça não me paga. Ele repassou o dinheiro ao Jader e eu fiquei no prejuízo", reclama Méllen, acrescentando que Mendonça chegou a falsificar vários recibos de quitação do débito. "Aquelas assinaturas são falsas e a perícia já comprovou". O americano acusa Jader de tramar com Mendonça umaconspiração para envolver suas empresas Maiame e Corcovado sem "nenhuma intenção" de reembolsa-lo.ArmaçãoO presidente do Senado, Jader Barbalho, nega que odinheiro repassado por Méllen a seu amigo Mendonça tenha ido parar em suas mãos. "Não sei de onde esse americano tirou essa história. Para mim, é mais uma armação", afirma o senador. Jader garante que nunca falou pessoalmente comMéllen ou chegou a vê-lo alguma vez. "Não sei se esse americano é branco, preto ou amarelo". Quando era governador do Pará em 1984 ele diz que sempre recebeu em Palácio muitos empresários para tratar de assuntos do interesse do Estado, mas nunca recebeu qualquer pedido deaudiência ou telefonema de Méllén.O senador acredita que Méllen deve estar ressentido com alguma coisa e quer agora encontrar um bode expiatóriopor suas empresas terem ido à falência. "Eu não me importo com esse tipo de acusação, que é leviana e gratuita", resumiu Jader.Sobre sua amizade com Mendonça, o senador étaxativo: "não falo com ele e não o vejo há mais de 15 anos". Se Mendonça usou seu nome para se aproximar do americano e conseguir os U$$ 2 milhões, Jader garante que ele fez isso sem sua autorização.Quanto ao contrato entre a Celpa e a Maiame para acompra da energia elétrica pelo Estado, o senador diz não se lembrar. "Nunca tive qualquer interferência ou participação nisso".O empresário José Maria Mendonça nega que tenharepassado a Jáder o dinheiro emprestado pelo americano. "O George Méllen está se aproveitando do inferno astral do Jader para denunciá-lo". Sua amizade com o senador, argumenta, foi rompida há mais de dez anos. "No começo, nós éramos amigos, mas depois cada umfoi para o seu lado", disse Mendonça, negando que alguma vez tenha sido tesoureiro de campanha política do senador.Perguntado se havia levado diretores do Banparáao escritório de Méllen, o empresário disse que isso nunca aconteceu. "Fui procurado pelo Jack Rhone, sócio do Méllen, que me disse que era um cara muito influente e que pretendia colocar dinheiro que ele dizia que era de fora, aqui no Brasil. Eu aceitei, porque estava precisando de dinheiro. Inicialmente negando ter visto Méllen alguma vezou com ele travado qualquer conversa, Mendonça admite ter falado com o americano durante a assinatura do contrato de empréstimo, no escritório onde estava Jack Rhone. "O Méllen foi apresentado a mim como um americanomuito rico e que não podia viver mais nos Estados Unidos". Envolvido no caso Aura juntamente com Jader, Mendonça enfatiza que pagou um preço alto por figurar nesse processo. "Tudo foi anulado e eu acabei pagando até o último centavo. Nesse caso não fui laranja, fui o acerola do Jader".O presidente do Banpará na época do empréstimo do banco a Méllen, Nelson Ribeiro, definiu a operação com a empresa do americano como "perfeitamente legal". Ele disse a Agência Estado que a Maiame tinha um crédito que precisava ser regularizado.O banco fez a regularização e transformou a garantia fiduciária em garantia real. "Conseguimos a hipoteca da usina de luz, que valia CR$ 8 bilhões para garantir o empréstimo de CR$ 5,5 bilhões". Sobre o contrato com a Celpa, Ribeiro diz que o banco autorizou a operação de crédito, mas o documento não retornou às suasmãos."A caução era o preço que a Celpa tinha de pagarao sr. Méllen pelo fornecimento da energia para a cidade de Breves. Eu nunca tive retorno de que a coisa não tivesse sido cumprida".Ribeiro nega que a elaboração do contrato entre oBanpará e a Maiame tenha sido realizada no escritório do americano ou que o dinheiro tivesse sido liberado em dez dias. "Desconheço isso. A operação foi realizada, mas não sei quanto tempo levou".

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