Amapá: sequelas de um sistema doente

Desvios em compras da saúde afetam equipamentos como PS de Macapá e Maternidade Mãe Luzia

Bruno Paes Manso, enviado especial , O Estado de S. Paulo

08 de outubro de 2011 | 14h33

Todo político corrupto deveria ser condenado a percorrer os corredores do Pronto Socorro de Macapá ou passar alguns dias internado no local para compreender os efeitos da corrupção no dia a dia. O local é um festival de assombros, lotado por causa dos cerca de 15 acidentes de trânsitos diários no Estado.

 

Pacientes repousam deitados no chão. No mesmo quarto, crianças se misturam a adultos. Páginas de jornal e de revista forram as janelas para tentar bloquear a entrada de sol. O ar condicionado não funciona e as salas, lotadas, transformam-se em saunas no clima úmido de 35 graus. Faltam equipamentos, remédios e funcionários.

 

Os enfermeiros aplicam injeções e fazem tratamentos delicados em corredores movimentados, prejudicados pelos esbarrões das pessoas que passam a todo momento. Olgailton Brito diz que precisou comprar um colchonete por R$ 45 para que seu irmão não dormisse em cima do ferro da maca. Cadeiras para visitantes e ventiladores são itens que precisam ser trazidos de casa pelos pacientes.

 

Garrafa. O agricultor Mauro da Silva Barata foi um dos que se acidentou em uma moto e precisou sofrer uma cirurgia na perna. Abandonado há 49 dias em uma maca no corredor do PS municipal, ainda não conseguiu vaga no hospital para ser operado. Como ele só consegue se levantar da maca com a ajuda de outros doentes, Barata precisa urinar em uma garrafa pet improvisada por causa da falta de papagaios. Ao ver a reportagem, ele pede ajuda e conta que a mulher e os filhos hoje passam fome porque dependem de seu salário.

 

No inquérito da Operação Mãos Limpas, são descritas fraudes em licitações e contratos envolvendo compra de remédios e alimentação para o PS e hospitais, consertos e compra de equipamentos de saúde, entre outros.

 

Sem ambulância. Complicações também atingem a Maternidade Mãe Luzia. Na semana em que o Estado foi ao local, faltavam antibióticos para os recém-nascidos da UTI neonatal, assim como alguns tipos de seringas, sondas e agulhas para anestesia. Os bebês doentes eram transportados em carros comuns por falta de ambulância.

 

Nas ambulâncias do Serviço de Atendimento Médico de Emergência (Samu), faltam placas para os desfibriladores desde dezembro do ano passado. Não há oxigênio nos carros, o oxímetro não funciona por falta de pilhas, uma porta teve a lateral amassada e permanece sem concerto, correndo o risco de abrir ao transportar um paciente.

 

Coleiras cervicais descartáveis são lavadas e reusadas. "Também precisamos pagar por nossos uniformes, cerca de R$ 200, apesar de recebermos salário mínimo", diz Darlene Lobo, técnica em enfermagem do Samu.

 

Um protesto solitário contra a injustiça

 

Além da harmonia entre os poderes e da falta de fiscalização, a tolerância dos amapaenses diante da corrupção é citada como causa do excesso de desvios no Estado. Com 660 mil habitantes, isolado do Brasil pelo Rio Amazonas e pela floresta que cobre 75% do seu território, o Amapá se movimenta a base de verbas federais. Na economia local, metade da população está empregada nas instituições públicas, enquanto outra metade vive dos serviços e do comércio.

 

A casa do desempregado Paulo Sérgio Souza da Silva, de 46 anos, aparece como um monumento contra as injustiças dos governantes amapaenses. Há 28 anos, desde que foi atropelado por um motorista de um carro oficial, que fugiu sem prestar socorro, ele passou a pintar e a manifestar sua revolta em todos os cantos do lugar onde mora.

 

"Ódio", "governo me deve", "atropelou e não prestou socorro", "dor" são algumas das palavras e frases que ele pinta, em diferentes tamanhos e cores, em paredes, dentro das gavetas, no vaso sanitário, em bandeirinhas que pendura pelo teto, na escada.

 

Quando foi atropelado, Souza conta que recebia 2 mil cruzeiros. Queria pelo menos um mínimo para poder se sustentar e tentou entrar com ações na Justiça, mas diz que os advogados "foram comprados pelo governo". "Meu caso é minúsculo e minha vida foi toda desestruturada por causa do governo. O governo te cobra 24 horas, mas não paga um minuto pelo que deve", é uma das outras frases que Souza sempre repete.

 

De forma meio destrambelhada, o desempregado garante que quer chegar até o 100 anos protestando contra as injustiças cometidas pelos "governos". Quando acabar os espaços de dentro da sua casa, diz que vai partir para as ruas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.