Alvos de processos usam eleição como refúgio

Busca de imunidade parlamentar mobiliza candidatos ao Congresso

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

10 Maio 2009 | 00h00

O eleitor pode negar o voto e evitar que tal fato ocorra, mas já estão em fase adiantada as articulações de pessoas com problemas na Justiça que pretendem concorrer às eleições do ano que vem para conquistar imunidade e foro privilegiado. Devem disputar por diferentes partidos, mas, no fundo, é como se pertencessem a um só, um hipotético "PI", Partido da Imunidade/Impunidade. Entre os que se encontram nesta situação e que já manifestaram a clara intenção de se candidatar à Câmara dos Deputados ou ao Senado estão Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, o casal Estevam e Sonia Hernandes, dirigentes da Igreja Renascer, o delegado Protógenes Queiroz, que comandou a Operação Satiagraha, o ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz (PMDB) e o ex-deputado cassado Juvenil Alves (PRTB-MG). Caso a Câmara adote a ideia - cada vez mais difundida nos bastidores - de conceder anistia aos ex-deputados José Dirceu (PT-SP), Roberto Jefferson (PTB-RJ) e Pedro Correa (PP-PE), cassados por envolvimento no escândalo do mensalão, eles também deverão concorrer no ano que vem. Desse modo, as próximas eleições prometem ser animadas, se bem que com perspectivas bastante pessimistas quanto à possibilidade de melhora na imagem do Parlamento. "Infelizmente, essa é a realidade. Temos hoje os candidatos habeas corpus. É uma tendência que mostra o quão frágil é a política", disse o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), integrante de um grupo suprapartidário que trabalha pelo resgate da ética na política. "A lógica não é a da representação popular, mas a de aliviar situações, como se o Congresso Nacional fosse um santuário para aqueles que têm contas a acertar com a Justiça", afirma ele. Jungmann opina que, desse jeito, a candidatura de integrantes do "PI" faz com que a reforma política se torne cada vez mais urgente. "O problema é que, se eleitos, os integrantes dessa bancada que busca se esconder da Justiça vão votar os projetos de reforma política. Aí, eles poderão tornar a votação viciada e até mesmo impedir mudanças", afirma o cientista político David Fleischer. Para ele, a única saída para evitar esse tipo de manobra seria a aprovação do projeto que cria as listas fechadas, que ficariam sob a responsabilidade dos partidos. PARTIDOS Fleischer, que é professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), considera que o casal Hernandes tem a eleição garantida. "Como líderes de uma igreja com milhões de fiéis eleitores, serão eleitos. Não resta dúvida." Da bancada do "PI", só Joaquim Roriz e Juvenil Alves têm partido. Os outros ainda estão em busca de um. Para se candidatar, Delúbio Soares chegou a articular - e não teve êxito - a volta ao PT, de onde foi expulso, quando formou com o empresário Marcos Valério a dupla pivô do escândalo do mensalão - segundo a CPI dos Correios um esquema que pagava mensalidade para parlamentares da base governista votarem em projetos de interesse do Planalto. Rejeitado na sexta pelo PT, resta a Delúbio buscar outro refúgio. O PMDB goiano ofereceu-lhe vaga. O casal Hernandes pode entrar para o DEM. Estevam e Sonia foram condenados pela Justiça norte-americana por entrar com dólares em excesso nos Estados Unidos. Ficarão presos por lá até agosto. Respondem a processos criminais em São Paulo por sonegação de impostos e desvio de encargos sociais. Protógenes Queiroz deve entrar para o PSOL, da ex-senadora Heloisa Helena. Joaquim Roriz renunciou ao mandato de senador menos de seis meses depois de tomar posse, para fugir de um eventual processo de cassação que investigava a participação dele no rateio de cerca de R$ 3 milhões, que teriam sido recebidos do empresário Nenê Constantino, sócio da Gol. Juvenil Alves havia sido eleito já no esquema de se livrar das ações judiciais. Com um processo por sonegação de impostos, entrou primeiro para o PT, mas acabou expulso. Foi então para o nanico PRTB. Em março, a Câmara declarou a perda do mandato dele. O advogado Luiz Flávio D?Urso, procurador do casal Hernandes, informou por intermédio de sua assessoria que sua função é defender Estevam e Sonia e que não tem informações da pretensão política deles. Assessores de Roriz disseram que ele não sabe ainda se será candidato a governador ou a senador. Delúbio Soares não respondeu aos recados. O ex-deputado Juvenil não foi encontrado.

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