Álvaro Lins buscou apoio de milícias para se eleger

Deputado estadual do RJ também foi acusado de envolvimento com bicheiros

01 de junho de 2008 | 19h37

Para se eleger deputado estadual pelo PMDB em 2006 , o delegado Álvaro Lins , na época ex-chefe de Polícia Civil, foi buscar apoio de algumas das milícias que dominam favelas da cidade. Para isto, contou com a intermediação de policiais civis do seu grupo e mesmo de delegados no exercício do cargo, como o caso de Marcos Cipriano. As informações constam do relatório no qual Lins, o ex-governador Anthony Garotinho e outras 14 pessoas foram denunciadas pela Polícia Federal e Ministério Público pelos crimes de formação de quadrilha armada, facilitação de contrabando, corrupção e lavagem de dinheiro. Em um dos diálogos gravados pela Polícia Federal e transcrito na denúncia dos procuradores regionais da República, Cipriano é aconselhado pelo inspetor de polícia Fábio Menezes de Leão, o Fabinho, a procurar o cabo da Polícia Militar Jorsan Machado de Oliveira, chefe da milícia em diversas comunidades carentes de Jacarepaguá, na zona oeste. Eles estavam preparando a visita do candidato Lins, em 24 de setembro de 2006, a cinco favelas daquela área, na jurisdição da delegacia chefiada por Cipriano. Cipriano, segundo gravações da PF, destacava a importância da visita: "Para a gente não deixar de aproveitar lá, um complexo de seis favelinhas, são vinte mil votos, entendeu?" Fabinho então quis saber se tinham negociado com a milícia local: "Foi feito contato com a mineira lá, feito contato com a rapaziada lá? Eu acho que ninguém fez contato com o pessoal lá, doutor". Foi quando recomendou que procurassem Jorsan: "O cara lá é o Jorsan e o Serginho, os caras lá são eles dois, fora eles dois a gente não conhece legal não". Em seguida, acrescenta: "Eles estão com a gente na campanha, são eles que puxaram o bonde lá". Jorsan também tinha ligações com a máfia dos caça-níqueis, chefiada pelo sobrinho do bicheiro Castor de Andrade, Rogério Costa de Andrade. Segundo as investigações da Polícia Federal, Andrade também mantinha um esquema de pagamento de propina para o grupo de Álvaro Lins.  Em outubro, depois que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) proclamou a vitória de Lins, foi o próprio quem telefonou para o cabo da PM agradecendo o apoio. Segundo a denúncia, Lins disse estar ligando "para agradecer aí a ajuda, a torcida, todo o trabalho de vocês, continuamos juntos, vamos em frente que tem muito trabalho ainda". Ouviu como resposta, de Jorsan: "Pode ficar tranqüilo que não vão lhe abandonar. Estamos ai e vamos estar juntos de novo". No início de 2007, Jorsan foi assassinado, segundo a denúncia contra Lins, logo após procurar a Polícia Federal com o objetivo de "delatar o esquema dos caça-níqueis".  Bicheiros - A relação de Lins com a contravenção do Rio era antiga. Em 1994, quando era tenente da Polícia Militar, ele teve seu nome encontrado na lista de policiais civis e militares que recebiam propinas dos bicheiros. Em 1997, o delegado Hélio Luz, na época chefe de Polícia Civil, quis impedir a nomeação de Lins quando ele passou no concurso para delegados. Mas um mandado judicial garantiu sua posse. Em 2000 ele ocupou a direção da Polinter, onde estavam lotados os policiais que passaram a ser considerados seus homens de confiança, conhecidos como a turma dos "inhos": Jorge Luiz Fernandes, o Jorginho; Helio Machado da Conceição, o Helinho; e Fábio Menezes de Leão, o Fabinho. No ano seguinte, mesmo tendo apenas cerca de dois anos de carreira, Luz foi nomeado pelo então governador Antony Garotinho o chefe da Polícia Civil.  Os "inhos" foram com ele para a Chefia de Polícia Civil e continuaram tendo influência na Polinter. Em em maio de 2002, o contraventor Rogério Andrade, preso sob a acusação de mandar matar o primo, Paulo Roberto Andrade, filho de Castor, ficou na Polinter. Um mês depois, Jorginho passou a controlar máquinas caça-níqueis na região de Jacarepaguá. Segundo a denúncia, "isto justifica as regalias que Rogério de Andrade obtinha para continuar a gerenciar os seus negócios da cadeia". Andrade foi solto por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ele continuou "valendo-se da proteção do chefe de Polícia Civil, Álvaro Lins, e dos integrantes do grupo dos Inhos, quer em troca do pagamento de propinas, quer em troca de apoio político". O contraventor voltou a ser preso, em setembro de 2006, pela Polícia Federal por conta da disputa que travava com o marido de sua prima, Fernando de Miranda Iggnácio, genro de Castor, pelo controle da exploração dos caça-níqueis na zona oeste da cidade. Levado para a carceragem da Polinter, voltou a dispor de diversas regalias, inclusive telefones celulares e visitas de prostitutas, com o respaldo de Lins e do seu grupo. Nesta época, o chefe de Polícia, para mostrar serviço a Andrade, orientou seus homens a investigarem Iggnácio, que foi preso em outubro de 2006. A prisão teria rendido R$ 1 milhão aos policiais Jorginho e Helinho, segundo consta da denúncia. O advogado de Álvaro Lins, Ubiratan Guedes, estava com o celular desligado e não retornou os recados deixados pelo Estado até o fechamento da edição.

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