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Alunos de classe média passam 5 dias em favela de SP

De um lado, adolescentes do Itaim e da Vila Olímpia. De outro, jovens que vivem numa das regiões mais carentes e violentas dacapital paulista, o Jardim Ângela. Na semana passada, um programa de intercâmbio da Escola Waldorf de São Paulo e do Núcleo Horizonte Azul provou que já passou da hora de diminuir a distância entre mundos diferentes - o dos jovens de classe alta e média e o de garotos da periferia, que enfrentam a vida em locais praticamente abandonados pelo poder público. Durante cinco dias os 11 alunos visitantes viveram na comunidade e participaram de atividades na horta, marcenaria, berçário, cozinha, escola, biblioteca, coleta seletiva, creche e pré-escola. No fim, concluíram: os resultados não poderiam ter sido mais positivos. "Essa semana foi muito importante para mim. Ganhei em vivência o que levo três meses para aprender lá em São Paulo", diz o estudante do terceiro colegial da Waldorf Ricardo Shinyashiki, de 17 anos, esquecendo que continuava na cidade. "Foi muito legal porque deu para ver que, apesar das dificuldades, as pessoas têm muita força", completa sua colega, Camila Raphaela Mifano Marcondes Nassif, de 18 anos, comentando sobre uma mulher que conheceu na carente Chácara Bananal e luta para conseguir dar aulas de alfabetização de adultos. "Quando olhei aquele lugar, fiquei completamente desesperada. Depois fiquei mal por pensar que estamos sem fazer nada quando tem gente com muito mais problemas tentando fazer. Aí dá vontade de mudar e ajudar." Na plenária de avaliação da experiência, na quinta-feira no Horizonte Azul, os alunos ainda citaram a importância de estar mais perto de situações que só conheciam por jornais, dar valor ao trabalho dos outros e a coisas corriqueiras do dia-a-dia, como ter comida pronta na mesa, e esquecer eventuais diferenças. "Os números viraram gente e gente é gente em qualquer lugar", diz a professora de Biologia da Waldorf, Luciana Nogueira. As semelhanças foram o maior espanto dos adolescentes. "Por eles terem mais dinheiro do que nós, temos certo preconceito, mas, conhecendo, dá para ver que isso não existe", diz um adolescente de 17 anos da comunidade, que prefere ser identificado apenas por Júnior. "Eles são normais como nós somos", complementa Evelise Santana Santos, de 20 anos. A professora de Matemática e tutora da turma, Fabiana Aparecida Martins, explica que houve em 2000 uma experiência semelhante na Favela Monte Azul, mas os alunos iam e voltavam todos os dias. Segundo ela, o programa da semana passada superou as expectativas e, a partir de agora, fará parte do currículo da escola. Sobre a reação dos pais, diz que nenhum se opôs e alguns visitaram a comunidade na semana retrasada. "A distância entre mundos diferentes gera preconceito, isolamento e faz aumentar a desigualdade. Esse trabalho é talvez um meio de diminuir isso", explica, lembrando que ele segue a pedagogia da escola, baseada na antroposofia - ciência pensada por Rudolf Steiner, que busca o desenvolvimento integral da pessoal. A experiência também rendeu projetos. Já há idéias, por exemplo, aplicar a coleta seletiva no Waldorf, arrecadar livros para uma biblioteca circulante e levar alunos do Jardim Ângela para a Vila Olímpia.

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