ROBSON FERNANDJES/Estadão
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Aloysio Nunes: da guerrilha à gestão Temer

Agora líder do governo no Senado, o paulista foi guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighela

LUIZ MAKLOUF CARVALHO, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2016 | 12h33

SÃO PAULO - Entrevistado em março de 1999 sobre o primeiro assalto do qual participou - como guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional (ALN, de Carlos Marighela), o então deputado federal Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), hoje líder do governo Temer no Senado, tinha a memória afiada para o relembrar, 31 anos depois. “Foi uma expropriação impecável”, disse, em linguagem da época, referindo-se a uma das primeiras ações armadas de vulto contra a ditadura militar: o bem-sucedido assalto ao trem pagador Santos-Jundiaí, em 10 de agosto de 1968.

Três homens armados renderam o condutor e levaram três malotes com NCr$ 108 milhões, moeda da época, dinheiro suficiente para o pagamento de todos os funcionários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Um dos homens puxou o freio de emergência e todos saltaram, correndo para dois Fuscas que os esperavam, um deles dirigido por Aloysio Nunes. Coube ao então advogado de 23 anos a tarefa de recolher e transportar um dos cinco guerrilheiros que entraram no trem e todas as armas usadas na ação. “O planejamento foi rigoroso, exigiu muitas viagens no trem, e possibilitou uma ação perfeita, sem o disparo de um tiro”, lembrou. Aloysio (ou Mateus, um de seus codinomes) foi parar nos cartazes dos “terroristas procurados”.

Paulista de São José do Rio Preto, começou a militância em 1963 ao entrar na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro logo depois do golpe de 64 - “foi como se o mundo tivesse desabado” - na esperança de contribuir para a resistência que não houve. Experimentou uma primeira rápida prisão de dois dias no mês de abril e depois integrou-se à dissidência marighelista que levaria ao rompimento com o PCB e à criação da ALN.

Em 1968, já advogado, Aloysio entrou no primeiro grupo de ação armada da ALN. Era eficiente na logística, no trabalho de levantamento e de infraestrutura para ações armadas. Um processo nas costas, com risco de prisão preventiva, a possibilidade de que a polícia descobrisse algo sobre as expropriações e uma boa desenvoltura no francês foram razões suficientes para Marighela despachá-lo a Paris. Viajou com passaporte falso, em novembro de 68.

Aloysio foi um dos principais articuladores da ALN na Europa, seja ganhando apoio de intelectuais como Jean-Paul Sartre, seja denunciando as torturas do regime militar ou fazendo a ponte no vai e vem de militantes e dirigentes da organização, entre eles Joaquim Câmara Toledo, o número 2 da ALN. Foi passeando com Aloysio que Toledo soube do assassinato de Marighela (em 4/11/69, São Paulo), pelas páginas do Le Figaro. Ele próprio também seria assassinado em outubro de 70. “Esses assassinatos foram bárbaros, cruéis e me marcam até hoje”, afirmou.

Encantado com o Partido Comunista Francês, “um partido de massa”, Aloysio nele ingressou em 1971, passo que o levou de volta, meses depois, ao Partido Comunista Brasileiro. Foi nessa condição que retornou ao Brasil em 1979 com a anistia. Filiou-se ao MDB, onde começou sua vida parlamentar.

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