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Álibis imperfeitos

É óbvio que Planalto e aliados trocaram renúncia de Cunha por adiamento da cassação

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2016 | 05h00

Um dos maiores aliados do equívoco é o maniqueísmo. Aquele estado de coisas em que as nuances são ignoradas de modo a parecer que a alternativa ao claro só pode ser o escuro. O Brasil já pagou preço alto duas vezes por aderir a essa lógica. Na primeira elegeu Fernando Collor no pressuposto de que representava o novo, oposto ao então presidente José Sarney.

Para isso o eleitorado contou com a colaboração dos meios de comunicação que alimentaram o fetiche, a despeito das barbaridades cometidas por ele quando prefeito de Maceió e, depois, como governador de Alagoas. O falso dualismo deixou de fora da competição gente como Ulysses Guimarães, Mário Covas, Leonel Brizola, Roberto Freire e Fernando Gabeira, para citar apenas alguns dos 22 candidatos naquela eleição.

Na segunda vez, acompanhada de uma série de mais três a partir de 2002, o País caiu em conto do vigário semelhante ao anterior, motivado por igual fantasia maniqueísta. Trocamos a chance de dar o passo adiante na concepção da seriedade administrativa plantada no Brasil com o advento da estabilização da economia, pela ideia de que o PT levaria os pobres ao paraíso e relegaria os “podres” ao ostracismo.

O resultado dispensa comentário, embora nos obrigue ao exercício da reflexão sobre a maneira como funcionam a sociedade e as instituições brasileiras. Ao que tudo indica, o PT terá o que conquistou por demérito próprio e Dilma Rousseff será definitivamente afastada do mandato conquistado pela fraude da propaganda enganosa. A maioria concorda com isso.

Por mais improvável e indesejável que seja a volta de Dilma ao Planalto, até que a questão se resolva a possibilidade está no ar. De onde decorre uma evidente boa vontade em relação ao governo Michel Temer, por obra daquele referido contraponto. Condescendência que interdita o exercício da crítica. Enfraquece cobranças indispensáveis: por atitude mais firme no ajuste dos gastos públicos e transparência na antecipação de medidas que serão implementadas para assegurar a retomada da economia ao bom caminho. A alegada cautela necessária ao período de interregno é justificativa injustificável.

Tal tolerância anuvia também a visão do óbvio: o Planalto e suas áreas de influência fizeram um acordo com Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Em troca da renúncia à presidência da Câmara, as forças políticas aliadas a Temer atuariam para postergar a cassação do mandato e, assim, conceder a ele mais tempo na condição de investigado com foro privilegiado.

Isso não é admitido, mas fica cada vez mais explícito. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), anunciara a votação do caso Cunha para a segunda semana deste mês. Pois bem, estamos no primeiro dia dela sem que tenha sido marcada a data. Amanhã está prevista a leitura do pedido de cassação em plenário. Etapa importante, mas meramente regimental.

Parlamentares governistas e ministros agora dizem que é “prudente” deixar isso para depois da votação do impeachment de Dilma Rousseff. Entramos aí, no mês de setembro durante o qual suas excelências estarão fora de Brasília por causa das eleições municipais de outubro, mês também perdido em termos de Parlamento.

A história de que todos temem o que Cunha teria a denunciar é apenas um álibi supostamente perfeito para justificar a postergação. Se as repudiadas mentiras do PT forem sucedidas pela aceitação de mentiras do PMDB ou de qualquer partido, o impedimento não terá valido a pena nem cumprido sua missão.

Pausa olímpica. Saio em férias por 15 dias. Fico longe da cena, torcendo para que o melhor da Olimpíada continue devolvendo à cidade que assistiu a minha vinda à vida, a alegria que faz do Rio uma absoluta e renitente maravilha.

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