'Aliança' de Bolsonaro e Congresso do PT com Lula vão disputar holofotes nos próximos dias

Mais do que um confronto ideológico, o roteiro desses dois encontros dá pistas sobre a estratégia política que pavimentará o caminho da polarização até as eleições municipais de 2020

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2019 | 16h25

Caro leitor,

A certidão de nascimento da “Aliança pelo Brasil”, nome do novo partido que o presidente Jair Bolsonaro pretende criar, será apresentada em uma convenção na próxima quinta-feira, 21, em Brasília, justamente na véspera da abertura do 7.º Congresso do PT, em São Paulo. Com mais críticas à Lava Jato, a pajelança petista marcará a volta de Luiz Inácio Lula da Silva à trincheira nacional do “PT raiz” para o enfrentamento com Bolsonaro. Mesmo inelegível,  barrado pela lei da Ficha Limpa, Lula terá ali, no dia 22, recepção de eterno candidato à Presidência.  

Mais do que um confronto ideológico, porém, o roteiro desses dois encontros dá pistas sobre a estratégia política que pavimentará o caminho da polarização até as eleições municipais de 2020, vistas como uma espécie de primeiro turno para a disputa ao Palácio do Planalto, em 2022. Enquanto o manifesto da “Aliança” ­– que surgiu após o racha com o PSL  – fala em livrar o País “dos larápios, dos ‘espertos’, dos demagogos e dos traidores que enganam os pobres”, o PT investirá no discurso de que é preciso salvar o Brasil de um “Estado de exceção”, da “Farsa a Jato” e do “descalabro” na economia.

O tom do pronunciamento de Lula é o mais aguardado. Após deixar a prisão, na sexta-feira, um dia depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubar a possibilidade de execução antecipada da pena, o ex-presidente atacou Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, hoje titular da Justiça, e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Agora, embora muitos digam que Lula adotará retórica menos agressiva, ele está longe de abraçar o estilo “paz e amor”.

Em conversas reservadas, o petista afirma que a oposição precisa ser cada vez mais “à esquerda” para derrotar o governo Bolsonaro e a “agenda liberal”. Mas também orienta o PT a apresentar alternativas à política econômica, principalmente para a criação de empregos, e a arquivar o “Fora Bolsonaro”.

O bordão consta de boa parte das teses que serão apresentadas por tendências do PT em seu congresso. O encontro vai reeleger a deputada Gleisi Hoffmann para a presidência do partido, apesar das resistências ao nome dela dentro de sua própria corrente, a Construindo um Novo Brasil (CNB). Como não poderia deixar de ser, no entanto, há divergências sobre a composição da Executiva – se com mais ou menos representantes do Nordeste, celeiro de votos do PT. Além disso, não existe acordo sobre como devem ser as alianças eleitorais da próxima temporada – se restritas à esquerda ou com partidos de centro, como o MDB, que foi chamado de “golpista” pelo PT no impeachment de Dilma Rousseff.

Bolsonaro, por sua vez, tenta erguer em prazo recorde a “Aliança” – que, apesar do nome, não é a “Renovadora Nacional” (Arena) da ditadura –, após um ruidoso rompimento com o PSL do deputado Luciano Bivar. Para que comece a ser analisada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a nova sigla precisa de 491,9 mil assinaturas, em no mínimo nove Estados. Os bolsonaristas querem coletar assinaturas digitais para acelerar o processo.

“Não vamos deixar que nenhum tipo de fraude seja feito para a criação de um partido laranja”, anunciou a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), destituída por Bolsonaro da liderança do governo no Congresso. “Vamos pedir a checagem de cada assinatura”. Nos bastidores, há uma guerra de dossiês e espionagem promovida pelos dois lados do PSL – o que continua com Bivar e o que se aliou a Bolsonaro, mas ainda não deixou a antiga legenda por medo de perder o mandato.

 Ao anunciar a criação da “Aliança”, na terça-feira, 12, Bolsonaro disse a deputados que quer pôr “um general” em cada diretório do novo partido para impedir irregularidades. Seus interlocutores entenderam o recado: escaldado pela sucessão de problemas no PLS e sempre desconfiado, o presidente terá “olheiros” para vigiar o funcionamento da sigla.

“Se tudo der certo, em março de 2020 Bolsonaro vai ter um supernanico para cuidar, sem tempo de TV e sem nada”, previu o senador Major Olímpio (PSL-SP), do grupo de Bivar. “Eu acho que vou criar agora o Pagegue – Partido da Gente Guerreira”, ironizou. Líder da bancada do PSL, Olímpio não foi convidado para a reunião daquela terça, no Planalto, quando Bolsonaro confirmou a saída do partido. “Não dava para pedir que a gente embarcasse nessa viagem do Titanic e ficasse esperando o naufrágio”, provocou o senador.

Conhecido desafeto do PT, Olímpio avaliou que o projeto da extrema direita, agora, corre perigo. “Estou mais preocupado com a possibilidade de retorno da esquerda porque Bolsonaro entregou as armas que tinha”, disse ele. Nessa revanche, tudo indica que o fiel da balança será mesmo o centro político. Sua identidade, porém, ainda não foi apresentada.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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