Aliados recusam ´casamento à força´ e podem repetir traições

A recente derrota do candidato petista na eleição para ministro do TCU, na última quarta-feira, revelou a fragilidade da coalizão de governo. A traição, velha faceta da política brasileira, pode se repetir na disputa pelo comando da Câmara, posto crucial no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de um aparente entendimento da base aliada nessa semana, o petista Paulo Delgado (MG) foi abandonado no plenário sem votos suficientes para vencer a disputa contra o candidato da oposição. Os aliados, numericamente superiores, juraram fidelidade a ele, mas usaram a urna secreta para trair e dar um recado: não vão aceitar "casamento à força". Integrantes do PMDB, PSB, PCdoB e outras siglas reclamam da resistência do PT em dividir espaços e poder. Por isso, culpam o partido de Lula por desagradáveis surpresas passadas e não descartam futuros "golpes". A escolha de um membro da oposição para ministro do TCU foi o primeiro teste indigesto da coalizão e uma prévia do que pode acontecer na eleição para a presidência da Câmara. Sem "combinar com os bispos", o PT lançou a candidatura de Arlindo Chinaglia (SP) para substituir Aldo Rebelo (PCdoB-SP) na presidência da Câmara pelos próximos dois anos. Aldo também é postulante à vaga, mas tem seu nome vetado pela maioria dos deputados petistas. "Se o Lula quer fazer um casamento feliz, não tem jeito, o PT precisa mudar de comportamento para vivermos sob o mesmo teto. Afinal, não tem casamento forçado", disse à Reuters o deputado Renato Casagrande (PSB-ES). O aliado puxou na história recente um exemplo simbólico. A eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE), no ano passado, foi uma reação ao candidato "imposto" pelo PT, Luiz Eduardo Greenhalgh (SP). Greenhalgh não era um nome popular e acabou derrotado pelo "parlamentar azarão". "O que aconteceu na eleição de quarta-feira foi a coisa mais grave dos últimos quatro anos. Na eleição do Severino, teve traição porque nós erramos, escolhemos um nome sem negociar. Na eleição do TCU, o PT tomou todos os cuidados para não impor nomes e a traição veio depois de um acordo", rebateu o petista Carlito Merss (SC). O deputado do PT torce para que o Congresso aprove o fim do voto secreto no Legislativo antes de 1º de fevereiro, data da eleição para a presidência das duas Casas. "É esse instituto que permite essas traições grotescas", completou. Ele próprio, porém, não acredita na viabilidade de votar uma matéria polêmica como esta nos próximos dias. ´Cristianizar o candidato´ A infidelidade política tem muitas caras e acepções. No Brasil, ganhou um vocábulo próprio como significado: "cristianizar". A expressão vem de 1950 e encontra semelhanças no momento atual. O termo surgiu na eleição presidencial daquele ano e representa o abandono do candidato Cristiano Machado, do PSD, por seus próprios aliados, que mudaram de idéia e decidiram apoiar Getúlio Vargas, então vitorioso. O primeiro nome do postulante pessedista acabou se transformando em sinônimo para qualificar traição. "A cristianização de Cristiano Machado caiu de moda, mas não se pode desprezar a possibilidade de se repetir na história", avaliou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). Enquanto os aliados batem cabeça, o presidente Lula paga a conta. O Palácio do Planalto não interferiu na eleição do TCU, mas ganhou de presente uma derrota. O deputado eleito para o tribunal, Aroldo Cedraz (PFL-BA), é afilhado político de Antônio Carlos Magalhães, inimigo público do governo. Fontes próximas ao presidente dizem que ele aposta no tempo para que haja consenso em torno de um candidato que represente os partidos da coalizão. O PMDB, estrela desse casamento programático, promete ter um postulante, mas não descarta negociar uma eventual desistência. "O problema é que o PT, até em eleição de síndico, lança candidato sem combinar com os inquilinos", ironizou Renato Casagrande.

Agencia Estado,

08 Dezembro 2006 | 20h38

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