Aliados dos Kirchners voltam a bloquear jornais argentinos

Casa Rosada não criticou a ação dos aliados caminhoneiros e restringiu-se apenas convocar a 'paz social'

Ariel Palácios,

07 de novembro de 2009 | 12h18

Caminhoneiros justificaram bloqueio por causa de diferendos trabalhistas com empresas de distribuição

Foto: Reprodução/Clarín

 

BUENOS AIRES - Mais de trezentos integrantes do sindicato dos caminhoneiros, o principal aliado sindical da presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner - bloquearam na madrugada deste sábado o acesso às gráficas do 'La Nación' e do 'Clarín'. O cerco às gráficas dos dois principais jornais do país, localizadas no bairro portenho de Barracas, durou quatro horas. Apesar da ilegalidade do piquete, a polícia nada fez. A Casa Rosada - o palácio presidencial - não criticou a ação dos aliados caminhoneiros e restringiu-se apenas convocar a "paz social".

 

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O ataque ao dois maiores jornais do país coincide com a realização em Buenos Aires da assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que avalia as pressões sofridas pelos jornalistas e empresas de mídia na região nos últimos tempos.

 

A Associação de Editores de Jornais de Buenos Aires (Adeba) considera que trata-se do maior ataque à circulação de jornais desde o fim da última ditadura militar, em 1983.

 

A Adeba emitiu um comunicado no meio da madrugada para anunciar o "estado de máxima alerta" perante o "insólito ataque do qual estão sendo vítimas no transcurso desta noite os jornais La Nación e Clarín". Segundo a Adeba, a ação desta madrugada (antecedida por outra similar na quarta-feira, além das constantes pressões e restrições do governo) constitui "o mais grave ataque à circulação de jornais desde o retorno da democracia, já que se busca, mediante um plano orquestrado, que a informação não chegue aos leitores".

 

"A extrema gravidade deste fato impede a distribuição dos jornais e a livre circulação da informação, e potencia-se perante a aparente falta de ação das autoridades, que nada fizeram para garantir a saída dos jornais e impedir este grosseiro ataque à liberdade de imprensa", afirmou a entidade.

 

O argumento oficial do sindicato dos caminhoneiros para obstruir os portões das instalações gráficas do 'Clarín' e 'La Nación' são diferendos trabalhistas com as empresas de distribuição de jornais. No entanto, os analistas políticos afirmam que por trás do bloqueio está o casal Kirchner, que mantém um duro confronto com a imprensa. Recentemente, os Kirchners conseguiram aprovar no Parlamento a Lei de Mídia, que implica em uma drástica restrição à atuação dos grupos de mídia.

 

O sindicato dos caminhoneiros é liderado por Pablo Moyano, filho de Hugo Moyano, secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), que nos últimos meses transformou-se na principal força de pressão do casal Kirchner, desgastado após a dura derrota nas eleições parlamentares de junho.

 

Os ataques à liberdade de imprensa na Argentina estão sendo o principal assunto da assembleia da SIP, realizada desde sexta-feira no hotel Hilton em Buenos Aires. Além do caso argentino, também estão sendo analisados situações de censura em outros países da região, entre eles, a Venezuela, onde o presidente Hugo Chávez está em permanente pé de guerra com a mídia.

 

Segundo Robert Rivard, presidente da Comissão de Liberdade e Expressão da SIP, "as táticas de Kirchner e Chávez contra imprensa são muito similares".

 

O jornal "Clarín" fez uma irônica pergunta ao referir-se às constantes restrições para o exercício da liberdade de imprensa: "Vestígios da Inquisição, 200 anos depois?"

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