André Dusek|Estadão
André Dusek|Estadão

Aliados de Cunha impedem leitura de relatório que pede processo contra ele

Em sessão marcada pela tensão, deputados próximos do presidente da Câmara conseguem adiar reunião do Conselho de Ética na qual Fausto Pinato (PRB-SP) apresentaria texto pela abertura de ação que pode levar à perda do mandato do peemedebista

Daniel Carvalho, Daiene Cardoso e Igor Gadelha, O Estado de S. Paulo

20 Novembro 2015 | 03h00

BRASÍLIA - Uma série de manobras da tropa de choque do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), adiou desta quinta-feira, 19, para a próxima semana a leitura do relatório preliminar pelo prosseguimento do processo de cassação do peemedebista no Conselho de Ética. Cunha é acusado de mentir à CPI da Petrobrás, em março, ao afirmar que não tem contas no exterior.

O relator Fausto Pinato (PRB-SP) já adiantou que pedirá a abertura de processo contra Cunha no Conselho por quebra de decoro parlamentar.

Adversários do peemedebista acusam o presidente da Câmara de ter utilizado o poder de seu cargo para protelar a sessão. Segundo eles, Cunha coordenou a série de manobras verificadas ontem na Casa.

No ato mais extremo do dia, o deputado Felipe Bornier (PSD-RJ) assumiu a presidência no lugar de Cunha e anulou a sessão do Conselho em resposta a uma questão de ordem de André Moura (PSC-SE). Ambos são aliados do peemedebista. Opositores e até correligionários de Bornier disseram que o presidente interino agiu por orientação de Cunha. Durante a presidência de Bornier, Cunha falava com ele sempre escondendo a boca com a mão.

Depois de bate-boca, críticas e protestos, Cunha, diante de um plenário esvaziado, voltou atrás e suspendeu a decisão de Bornier. Os aliados de Cunha chegaram atrasados à sessão do Conselho. Da lista de parlamentares próximos a Cunha, apenas Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) havia marcado presença para dar quórum. Petistas e peemedebistas só apareceram depois de aberta a sessão. 

O Planalto fez um pacto de não agressão com Cunha e quer que os três deputados do PT no Conselho de Ética ajudem a adiar o seu processo de cassação. Em conversas reservadas, auxiliares da presidente Dilma Rousseff afirmam não acreditar que Cunha, fragilizado, dê seguimento ao processo de impeachment e, além disso, querem manter a boa relação para que ele não prejudique votações de interesse do governo, como as do ajuste fiscal.

Quórum. O primeiro aliado de Cunha a atuar no Conselho foi André Moura, que tentou encerrar a sessão alegando espera de mais de meia hora para abri-la. A reunião havia sido marcada para as 9h30, mas só houve quórum às 10h23, quando se atingiu o número mínimo de 11 parlamentares. Mesmo sem marcar presença, o suplente do Conselho Manoel Júnior (PMDB-PB) apresentou duas questões de ordem. Primeiro, pediu a leitura da ata da sessão anterior. O presidente do Conselho, José Carlos Araújo (PSD-BA) disse que o documento não estava pronto por “falta de material humano”. 

Manoel Júnior reagiu. “Antes mesmo de iniciar qualquer sessão, Vossa Excelência tem que ler a ata ou dispensá-la”, disse o aliado de Cunha. “Vossa Excelência está impedida de continuar a sessão”, afirmou. Araújo retrucou. “Vossa Excelência há de convir que o presidente deste Conselho chama-se José Carlos Araújo e não Vossa Excelência.” Fracassada a tentativa, Manoel Júnior tentou nova intervenção, pedindo o impedimento do deputado Júlio Delgado (PSB-MG), um dos principais críticos de Cunha. 

O peemedebista disse que Delgado “não se encontra em condições de deliberar, pois não detém a isenção e a imparcialidade necessárias” por ser um dos que pedem o afastamento de Cunha da presidência da Câmara. 

O deputado Betinho Gomes (PSDB-PE) disse que, se Delgado fosse afastado, o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (SD-SP), também teria de ser impedido por declarar apoio a Cunha.

Enquanto isso, aliados de Cunha também atuavam no plenário da Câmara. O presidente da Casa abriu a ordem do dia às 10h44, antes do horário de costume. Aliados de Cunha apresentaram questões de ordem pedindo a suspensão de todas as comissões, inclusive a do Conselho de Ética, o que aconteceu 28 minutos depois.

À tarde, depois de deixarem Cunha no plenário, os deputados retomaram simbolicamente a sessão. A leitura do parecer está marcada para terça-feira.

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