Aliado de Maia diz ter sido 'traído inexplicavelmente' e provoca racha no DEM

Rompimento ocorre após saída de Marcos Pereira, do Republicanos, que se aliou a Lira; partido ligado a Universal pode ganhar Ministério

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2020 | 15h49

Caro leitor,

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), perdeu mais um aliado. Em mensagem de WhatsApp enviada à bancada do DEM, o deputado Elmar Nascimento (BA), ex-líder do partido, disse ter sido “traído inexplicavelmente” por quem considerava seu melhor amigo e “estranhamente relegado” na escolha do candidato à sucessão de Maia.

Mesmo sem citar o presidente da Câmara, Elmar não deixou dúvidas sobre quem falava. Próximo ao presidente do DEM e prefeito de Salvador, ACM Neto, o deputado era um dos pré-candidatos do grupo de Maia à eleição na Câmara, marcada para fevereiro de 2021, mas foi preterido. Hoje há apenas dois concorrentes nesse bloco: Baleia Rossi (MDB) e Aguinaldo Ribeiro (Progressistas). Um deles vai enfrentar Arthur Lira (Progressistas), o chefe do Centrão que tem o aval do Palácio do Planalto e foi carimbado por Maia como “candidato do Bolsonaro”.

O desabafo de Elmar veio a público no mesmo dia em que o vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira (SP), anunciou publicamente o rompimento com Maia e a aliança com Lira. Presidente do Republicanos e bispo licenciado da Igreja Universal, Pereira também queria concorrer à cadeira de Maia, mas disse ter sido vítima de um “veto velado” por parte do colega.

A negociação para o apoio a Lira envolveria a entrega do Ministério da Cidadania, hoje ocupado por Onyx Lorenzoni (DEM), ao Republicanos. Trata-se da pasta que cuida justamente do programa Bolsa Família. “Já fui ministro. Não quero ser de novo”, disse Pereira ao Estadão. No governo Temer, ele foi ministro da Indústria e Comércio Exterior. 

O problema é que, além da debandada do Republicanos – com 31 deputados – o racha é agora nas fileiras do próprio DEM, partido de Maia. Diagnosticado com coronavírus, Elmar está internado em Brasília e enviou do hospital mensagem para a bancada do DEM, nesta quarta-feira, 16, pedindo um “voto de confiança” após seu nome ter sido eliminado da lista de Maia, como num jogo de “Resta Um”.

Pelo WhatsApp, o deputado disse que tinha a simpatia de vários partidos e citou até mesmo o PT, que ainda não fechou com Maia. “Cheguei ao ponto de conseguir o apoio explícito e público do governador da Bahia (Rui Costa, do PT) e dos três senadores com respectivas bancadas, adversários locais nossos (...). Apesar de tudo isso, meu nome vem sendo “estranhamente ” relegado. Fui traído inexplicavelmente por quem eu considerava meu melhor amigo. Quem eu mais confiava. Quem eu mais acreditava. Quem sempre segui cegamente em tudo”, escreveu. “Agora só me resta vocês”. 

Elmar tem dito a amigos que não respaldará o candidato de Maia e, nessa empreitada, ainda pode levar votos da bancada do DEM para outro lado. Ao Estadão, o deputado afirmou que sairá do hospital na segunda-feira, 21, e iniciará um processo de conversas. “Vou ouvir todos e decidir quem está comigo. Podem ser poucos, podem ser muitos, vamos avaliar. Não tenho nada contra Baleia, nem Aguinaldo. Fizeram o papel deles”, observou.

A eleição que vai renovar a cúpula do Congresso tem importância estratégica para o presidente Jair Bolsonaro. Tanto na Câmara como no Senado, o nome escolhido estará na direção das Casas Legislativas nos próximos dois anos, período em que Bolsonaro vai acelerar sua campanha por um segundo mandato. 

Cabe ao presidente da Câmara, por exemplo, pautar os projetos e propostas que serão votados. É também dele o poder para arquivar ou dar andamento a pedidos de impeachment contra o presidente – e há mais de 50 contra Bolsonaro. A lembrança de Eduardo Cunha (MDB), que há cinco anos deu o “start” para o processo de impeachment contra a então presidente Dilma Rousseff (PT) é sempre uma sombra pairando sobre a Praça dos Três Poderes.

Embora a disputa para o Palácio do Planalto seja apenas em 2022, todos os movimentos políticos no Congresso estão voltados para isso. Até agora, por exemplo, o PT resiste a respaldar uma eventual candidatura de Baleia Rossi, que comanda o MDB, porque o vê como aliado do projeto do governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Em campanha ao Planalto, Doria veste o figurino de oposição a Bolsonaro e também ao PT.

Na tentativa de jogar água na fervura, ACM Neto amenizou o racha no DEM e disse que encontrará os “caminhos da conciliação”. “Creio que Baleia Rossi é um dos nomes fortes neste processo”, afirmou o presidente do DEM. O aceno é para que o MDB apoie Rodrigo Pacheco, o candidato do DEM à sucessão de Davi Alcolumbre no Senado. 

O MDB, porém, quer  chapa própria e não vê chance de “solução casada” nas duas Casas. Os percalços enfrentados hoje pela centro-direita são apenas um aperitivo para 2022.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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