Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Alessandro Vieira: 'Discussão sobre Presidência não pode ser entre quem rouba mais ou rouba menos'

Cidadania deve aprovar pré-candidatura de senador que se destacou na CPI da Covid nos próximos dias

Entrevista com

Alessandro Vieira (Cidadania-SE), senador

Marcelo de Moraes, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2021 | 14h44

BRASÍLIA - Projetado nacionalmente pela atuação na CPI da Covid, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) decidiu apresentar sua candidatura à Presidência por não aceitar a polarização da disputa entre Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como defensor da construção de uma candidatura de terceira via, o senador, que é delegado da Polícia Civil, reconhece que resolveu entrar na corrida eleitoral por não ver no centro do debate político a defesa do combate à corrupção e ações para a redução da miséria no País. 

"A gente não pode ser condenado a vida inteira a ter problemas de corrupção. Nenhum País está condenado a isso", disse o senador em entrevista ao Estadão. "E no cenário que a gente tinha, a discussão estava entre quem rouba mais ou quem rouba menos. Quem faz mais escândalos. E a gente não pode ter uma mediocridade tão grande. Tem de tentar avançar naquela renovação que a gente defende desde 2018."

Para Alessandro, outros candidatos da terceira via acabam não conseguindo tratar do problema porque são "reféns de articulações partidárias que são incompatíveis com o combate à corrupção".

"Eu já vinha conversando. Há algum tempo, eu tenho contato com praticamente todos eles. Eduardo Leite, Luiz Henrique Mandetta, João Doria. O contato com o Ciro é que era um pouco mais distante, mas tenho conversado com pessoas do partido dele. E a gente não vê esse perfil. Ainda que eles tenham nas mãos até mesmo pesquisas que apontam essa demanda da sociedade, eles são refratários. Até porque, muitas vezes, são reféns de articulações partidárias que são incompatíveis com o combate à corrupção”.

Nos próximos dias, a cúpula do Cidadania deve aprovar a pré-candidatura do senador. Essa movimentação reposiciona o partido no jogo da eleição, depois da frustração provocada pela desistência do apresentador Luciano Huck de concorrer ao Planalto.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O senhor comunicou ao comando do Cidadania que pretende disputar a Presidência da República. Por qual razão decidiu fazer isso?

A minha motivação é relativamente simples. Existe uma série de pautas que não vejo na agenda daqueles nomes que já se colocaram como pré-candidatos. A mais marcante para mim é a questão do combate à corrupção. Mas você também tem outras. Como a questão de uma renda mínima, ou renda básica, com a qual você possa fazer um colchão para esses milhões de miseráveis, que a gente está tendo acrescidos por conta da pandemia. Então, o objetivo é trazer isso para o debate e colocar essas pautas e outras tantas na mesa. E depois ver o que a gente pode fazer em termos de alternativa de terceira via.

No Senado e na sua vida profissional anterior, o senhor já se pautava por ações no combate à corrupção. Sua candidatura vai se pautar também nessa linha?

Sem dúvida. A gente continua vendo que mudou o governo e o problema persiste. É preciso uma mudança de verdade. Não é só uma mudança de nomes. Tem de ser de práticas, de exemplos. E, repito, hoje eu não vejo nenhum dos pré-candidatos falando sobre isso. Você não pode simplesmente ignorar isso daí.

Sua candidatura representa mais uma tentativa de construção de uma terceira via alternativa a Bolsonaro e Lula. O senhor pretende conversar com os outros pré-candidatos que estão se colocando como opções para a terceira via?

Eu já vinha conversando. Há algum tempo, tenho contato com praticamente todos eles. Eduardo Leite, Luiz Henrique Mandetta, João Doria. O contato com o Ciro é que era um pouco mais distante, mas tenho conversado com pessoas do partido dele. E a gente não vê esse perfil. Ainda que eles tenham nas mãos até mesmo pesquisas que apontam essa demanda da sociedade, eles são refratários. Até porque, muitas vezes, são reféns de articulações partidárias que são incompatíveis com o combate à corrupção.

Assim que seu partido lhe der sinal verde para colocar sua pré-candidatura na rua, qual será sua estratégia de ação?

Se o partido der ok, a gente vai começar a ter um diálogo mais intenso com a sociedade, o que significa viagens e também muita ação digital. De aproximação e entendimento do que são as verdadeiras demandas do Brasil.

O senhor conseguiu ter visibilidade por sua atuação na CPI da Covid. Acredita que isso pode ajudar a projetar a sua candidatura nacionalmente?

A CPI ajuda no sentido da visibilidade e também nessa compreensão de cenário. A gente percebe que persistem os mesmos esquemas, com as mesmas pessoas, inclusive. Só mudou o ponto de conexão. Como se fosse aquela conexão de tubos em que você trocou uma rosca pela outra, botou um adaptador e ficou tudo certo. Onde antes estavam os sindicalistas, ou pessoas mais vinculadas ao partido, agora você tem militares da reserva ou lobistas que fazem essa conexão.

O senhor cita a volta da pobreza extrema como uma de suas prioridades. O senhor acha que hoje esse é o problema mais sério que precisa ser resolvido no Brasil?

Você tem alguns pontos de partida. A mim parece que você não vai conseguir discutir nada se não resolver esse problema da miséria. Porque todo o restante, educação, oportunidade de emprego, só chega se você tira a pessoa do estado de absoluto desespero. E hoje isso está na faixa de 20 milhões de pessoas. Isso é muito grande. Está impactando todas as cidades, grandes, médias. Eu que sou do Nordeste mais ainda vejo isso de perto. E há realmente essa volta do desespero pela fome. A gente tem de atender isso de imediato, dentro de uma coisa responsável, com fonte de financiamento. Existem já projetos no Congresso nesse sentido. É preciso também fazer a reforma política, começando pelo fim da reeleição para cargos executivos para tentar colocar o Brasil numa roda virtuosa.

O senhor comunicou aos outros pré-candidatos da terceira via que pretendia se lançar na disputa?

Não. Num primeiro momento, o debate sempre foi em cima de ideias e bandeiras. Quando num segundo momento você percebe que essas ideias e bandeiras não estão representadas, aí senti a necessidade de colocar o meu nome.

O senhor acha que era importante colocar essas ideias no debate eleitoral quando ainda falta mais de um ano até a eleição? Esse é o timing adequado?

Sim. Acho que as pessoas precisam resgatar uma esperança de que dá para resolver esse problema também. A gente não pode ser condenado a vida inteira a ter problemas de corrupção. Nenhum país está condenado a isso. E no cenário que a gente tinha a discussão estava entre quem rouba mais ou quem rouba menos. Quem faz mais escândalos. E a gente não pode ter uma mediocridade tão grande. Tem de tentar avançar naquela renovação que a gente defende desde 2018.

Seu partido lhe deu alguma sinalização sobre prazo para responder sobre sua candidatura?

O partido deve ter uma reunião da Comissão Executiva Nacional essa semana para tratar disso. Depois, outra com o Diretório Nacional. Porque tenho colocado, desde o início, que só faz sentido ser candidato se for um projeto coletivo. Projetos individuais e personalistas a gente tem às dúzias. Então, precisa ter essa convicção de que é coletivo mesmo.

E se o partido não aceitar sua candidatura? O senhor pretende trocar de legenda para levar a candidatura adiante?

No momento não tem nenhuma expectativa de mudança de partido ou coisa que o valha. A receptividade ao projeto está sendo muito alta. E a gente vai ter de aguardar os posicionamentos, que acredito serão positivos. Eu vejo muitos partidos pensando para dentro. E você tem de ouvir um pouco mais a sociedade. Saber o que a sociedade está procurando. Quais são os perfis. E aí apresentar as pessoas corretas, capacitadas, nesse perfil. Acho que faltou isso em 2018 e a gente está pagando um preço muito alto.

O senhor acha que o Brasil está caminhando para repetir o mesmo processo eleitoral ocorrido em 2018, se não houver uma candidatura com esse perfil que o senhor defende?

Tenho certeza. Você vai ter candidaturas muito parecidas e que não comunicam o desejo real de mudança para a sociedade. E aí favorece os projetos que são de continuidade. Seja de continuidade imediata do Bolsonaro ou do retorno do Lula.

O senhor coloca o combate à corrupção como um tema central de sua campanha e essa também é a principal bandeira do ex-ministro Sérgio Moro. Ele ainda não anunciou se pretende ser candidato. O senhor pensa em pedir apoio a ele?

Ele tem um tempo ainda dessa fase de atividade particular. Temos de respeitar. Imagina-se que ele possa ter algum posicionamento ainda esse ano. É uma figura importante da história do Brasil. Mas, agora, a gente precisa encaminhar soluções dentro daquilo que está efetivamente em campo e posto para fazer esse enfrentamento.

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