FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Alckmin sofre críticas da ‘bancada da bala’ de SP

Descontentamento, inclusive de aliados do governador, tem como foco principal o valor do salário pago aos policiais no Estado

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

06 Março 2018 | 05h00

Sem conceder aumento a policiais há quase quatro anos, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), enfrenta o descontentamento das duas corporações – a Civil e a Militar – e críticas de representantes da "bancada da bala" na Assembleia Legislativa, formada por deputados da base aliada. Para tentar contornar a crise interna, Alckmin enviou à Casa no início deste ano um projeto de de lei que propõe reajuste de 4%, o que, na prática, complicou ainda mais a relação com a bancada, que reúne três dos cinco parlamentares mais votados em 2014. 

Tucanos como o ex-presidente da Assembleia Fernando Capez e o Coronel Telhada negociam deixar o PSDB. O primeiro conversa com o PSB, partido do vice-governador Márcio França, que assumirá o governo em abril, e o segundo vai se filiar ao PP no dia 17.

“A condução da segurança pública pelos governos do PSDB é desastrosa. O governador não sabe valorizar os policiais, aliás, todo o funcionalismo. É por isso que estou saindo do partido, não vou mais insistir”, diz Telhada. O convite para o coronel trocar o PSDB pelo PP foi feito pelo deputado Delegado Olim, que exige ao menos  7% de aumento.

+++Intervenção faz Alckmin reforçar tema da segurança

O deputado classificou como “ridículo” o valor do salário pago ao policial de São Paulo. “A sorte do governador é que a polícia paulista é muito boa, trabalha direito, não faz greve. Mas daí a dizer que está tudo uma maravilha é forçar a barra”, disse. O salário inicial de um PM de São Paulo é inferior a R$ 3 mil, um dos mais baixos do País. 

Representante da Polícia Civil no Legislativo, Olim afirma que as delegacias estão sucateadas, que faltam delegados e escrivães para atender a população e investigar os crimes registrados. “Isso sem falar no déficit de policiais (de 29%, segundo o sindicato da categoria). Agora, na comparação com os outros Estados, com o Rio, parece tudo ótimo mesmo. Mas só parece.”

Coronel Camilo (PSD), que chefiou a Polícia Militar entre 2009 e 2012, também compõe o grupo dos insatisfeitos, mas diz que nem tudo é ruim na gestão atual. “Há prós e contras. Na minha avaliação, o governador fez uma boa gestão. Investiu em tecnologia e armamento, não contingenciou recursos, ampliou as bases militares no Estado, baixou os índices de criminalidade. Mas deixou a desejar no item mais importante: o policial. Além de não reajustar os salários, ainda diminuiu o efetivo ao não realizar concursos nem nomeações”, afirmou.

+++'Me considero mais amadurecido que em 2006', diz Alckmin

Outdoors. Às vésperas do início da campanha, o sindicato dos delegados do Estado ainda inicia um movimento interno contra o governador. Segundo a presidente da entidade, Raquel Kobashi Gallinati, os policiais civis não cogitam greve, mas vão pressionar Alckmin  – outdoors já foram espalhados por cinco rodovias que chegam à capital questionando as políticas do  tucano.

E a lista de preocupações ainda inclui o uso eleitoral, pelos adversários, do fato de a maior organização criminal do País, o PCC, ter surgido e se disseminado pelo Brasil e até pelo exterior durante os governos tucanos. E foi em 2006, ano em que Alckmin disputou o Planalto pela primeira vez, que a facção coordenou uma ação orquestrada de ataques a bases policiais e agentes de segurança do Estado. A "guerra" provocou mais de 500 mortes, de ambos os lados.

Para o coronel José Vicente da Silva, ex-secretário nacional de Segurança, Alckmin falhou ao não valorizar o policial ao longo de seus governos à frente do Estado. “Isso todo mundo concorda. Mas também há de se concordar que os números de São Paulo no combate à violência são impressionantemente positivos, de nível internacional. Esse certamente é um trunfo.”

Taxas. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública ressaltou que além de reduzir as taxas de homicídio ao índice mais baixo da série histórica, as polícias de São Paulo também prenderam 207.967 pessoas e apreenderam 15.597 armas em 2017.

"As ações desenvolvidas no ano passado ainda fizeram com que os latrocínios diminuíssem 5,11%, os roubos 5.99% e os roubos a banco 29,20%, chegando à menor quantidade em 17 anos. O trabalho é constante e diuturno.

Com relação ao reajuste, a pasta ressalta que continuará dialogando com as entidades de classes e acompanhado a arrecadação do Estado em conjunto com as áreas técnicas do governo. "Paralelamente aos vencimentos, pagos rigorosamente em dia, o governo criou também o Programa de Metas e de Bonificação Policial que, de acordo com metas e parâmetros definidos em parceria com o Instituto Sou da Paz, tem como principal objetivo premiar o esforço dos policiais na redução da criminalidade. Desde 2014, quando teve início o programa de bonificação, foram efetuados 520.673 pagamentos, totalizando R$ 417,6 milhões."

Outro dado positivo que a secretaria destaca é que em São Paulo todo policial tem colete e pistola própria. O equipamento é pessoal e pode ser levado para casa após o turno – no Rio, por exemplo, os policiais são obrigados a devolvê-lo.

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